Economia

Ultrapar: de rejeitada a líder da Bolsa em 12 meses

Ultrapar: de rejeitada a líder da Bolsa em 12 meses
Foto: moneytimes.com.br

As ações da Ultrapar (UGPA3) valorizaram 100% nos últimos 12 meses. A companhia que operava sistematicamente com desconto frente aos concorrentes agora lidera os ganhos do Ibovespa em 2026, com alta de 51,58% no ano.

O movimento representa uma ruptura estrutural. Durante anos, a Ultrapar negociou abaixo de seus pares setoriais. Investidores institucionais tratavam o papel como alternativa de terceira linha. Fundos especializados em small caps evitavam a exposição.

O que mudou no modelo de negócio

A reviravolta começou com reestruturação operacional em três frentes. Primeiro, a Ipiranga ganhou eficiência logística após digitalização da rede de distribuição. Segundo, a Ultragaz reduziu custos operacionais em 18% com automação de centros de envase. Terceiro, a Extrafarma fechou unidades deficitárias e concentrou operação em praças rentáveis.

Os números do último trimestre confirmam a mudança de patamar. A margem EBITDA consolidada subiu de 6,2% para 9,7% na comparação anual. O retorno sobre capital investido saltou de 4,1% para 8,3%. O endividamento caiu de 3,2 para 2,1 vezes o EBITDA.

Analistas de sell-side revisaram projeções. Casas que recomendavam venda migraram para compra. O preço-alvo médio subiu de R$ 18 para R$ 32 em seis meses.

Contexto setorial favorável

A Ultrapar se beneficia de três vetores macroeconômicos simultâneos. A recuperação do consumo de combustíveis reflete retomada da mobilidade urbana pós-pandemia. O gás de cozinha mantém demanda inelástica mesmo com pressão inflacionária. O varejo farmacêutico cresce com envelhecimento populacional e ampliação de tratamentos crônicos.

Empresas comparáveis no setor de distribuição negociam a múltiplos superiores. A Vibra (VBBR3) opera a 8,5 vezes EV/EBITDA. A Raízen (RAIZ4) negocia a 7,2 vezes. A Ultrapar ainda está em 6,8 vezes, sugerindo espaço para convergência.

Riscos no radar

A valorização acelerada traz questionamentos sobre sustentabilidade. Parte da alta reflete recuperação de múltiplos historicamente deprimidos, não necessariamente crescimento orgânico de longo prazo.

Três riscos merecem atenção. Primeiro, a margem da Ipiranga depende de spread entre refino e distribuição, variável volátil. Segundo, a Ultragaz enfrenta competição crescente de distribuidoras regionais com estrutura enxuta. Terceiro, a Extrafarma ainda registra rentabilidade abaixo da média setorial.

O ambiente regulatório adiciona incerteza. Mudanças na tributação de combustíveis afetam diretamente a operação. Discussões sobre teto de preços de medicamentos impactam a farmácia. Regras ambientais para transporte de GLP elevam custos de conformidade.

Perfil do investidor

A ação deixou de ser caso de value investing clássico. O desconto em relação aos pares diminuiu. O momentum está precificado. O risco-retorno mudou de perfil.

Para quem já está posicionado, o cenário favorece realização parcial de lucros. Para novos entrantes, a assimetria de ganhos reduziu significativamente. A janela de compra com margem de segurança se fechou.

Investidores institucionais aumentaram participação nos últimos trimestres. Fundos multimercado elevaram exposição de 2,3% para 4,7% do patrimônio. Fundos de pensão migraram de underweight para neutral.

O que vem pela frente

A companhia sinalizou três prioridades para os próximos 18 meses. Expansão da rede Ipiranga em regiões com baixa penetração. Ganhos de escala na Ultragaz com aquisição de distribuidoras regionais. Digitalização da Extrafarma para competir com grandes redes.

O guidance para 2026 projeta crescimento de receita entre 8% e 12%. A margem EBITDA deve estabilizar entre 9% e 10%. O capex previsto é de R$ 2,1 bilhões, concentrado em logística e tecnologia.

A tese de investimento mudou de recuperação para crescimento moderado. O papel deixou de ser especulação contrarian para se tornar posição de portfólio. A Ultrapar agora compete por espaço com nomes consolidados do índice.

O mercado testará se a empresa consegue sustentar os novos patamares operacionais. Os próximos trimestres dirão se a transformação é estrutural ou cíclica.