Economia

Milei ataca comunismo em convenção do PL e acende debate sobre reforma política brasil

Milei ataca comunismo em convenção do PL e acende debate sobre reforma política brasil
Foto: valor.globo.com

O presidente argentino Javier Milei subiu ao palanque de uma convenção partidária brasileira para atacar o comunismo. O alvo: o governo Lula. O palco: a oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência pelo PL.

Para o candidato do PL, não houve problema algum. "Foi reciprocidade do Milei", declarou Flávio Bolsonaro ao defender o correligionário portenho. "Porque o comunismo é esse mal mesmo."

A diplomacia dos palanques

A participação de um chefe de Estado estrangeiro em ato de campanha eleitoral brasileiro inaugura precedente delicado. Milei não poupou críticas ao governo brasileiro em solo nacional, durante evento partidário, diante de milhares de militantes.

Flávio Bolsonaro rejeitou qualquer interpretação de que houve ataque ao Brasil. "Não atacou o Brasil, atacou o comunismo", argumentou. A distinção é tênue quando o comunismo atacado governa o país-sede do evento.

O episódio recoloca na pauta a necessidade de regras mais claras para participação estrangeira em processos eleitorais. A legislação brasileira proíbe doações internacionais. Mas não regula presença física de mandatários estrangeiros em eventos de campanha.

As tarifas e a narrativa bolsonarista

Flávio ampliou o fogo para outro front. Culpou o governo Lula pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. E defendeu o irmão, Eduardo Bolsonaro, de acusações de ter influenciado a decisão americana.

"Você acha que o Eduardo tem poder de coerção sobre o presidente dos Estados Unidos?", questionou. O deputado federal tem sido alvo de críticas por declarações próximas à Casa Branca trumpista, justamente no período que antecedeu as tarifas.

A defesa se apoia na lógica da denúncia: Eduardo apenas alertava sobre problemas nas relações Brasil-EUA, segundo o irmão. Não teria causado as represálias comerciais.

Reciprocidade como estratégia

O conceito de "reciprocidade" invocado por Flávio remete a 2022. Jair Bolsonaro apoiou Milei quando este era candidato marginal na Argentina. Agora presidente, Milei retribui em solo brasileiro.

A estratégia constrói rede de apoio transnacional entre líderes de direita latino-americanos. Mas colide com protocolos diplomáticos tradicionais. E com marcos legais nacionais sobre interferência externa em eleições.

Para a ciência política, o fenômeno não é novo. Líderes populistas frequentemente constroem alianças além-fronteiras para legitimar narrativas domésticas. Viktor Orbán na Hungria e Matteo Salvini na Itália fizeram o mesmo na Europa.

O que falta na reforma política

O debate sobre reforma política no Brasil tradicionalmente se concentra em financiamento de campanha, cláusula de barreira e sistema eleitoral. A participação de chefes de Estado estrangeiros em campanhas não consta da agenda.

A lacuna revela atraso legislativo. Campanhas se internacionalizaram. Redes sociais amplificam vozes de fora. Líderes estrangeiros influenciam narrativas eleitorais com presença física ou digital.

Especialistas apontam necessidade de regular três dimensões: presença física de autoridades estrangeiras em atos de campanha; declarações públicas de governantes externos sobre processos eleitorais brasileiros; coordenação entre partidos nacionais e organizações políticas internacionais.

O episódio Milei oferece caso concreto para legisladores. Mas o Congresso não deu sinais de que incluirá o tema na reforma política.

Comunismo como inimigo externo

A narrativa anticomunista une Milei e os Bolsonaro. Serve como amálgama ideológico que transcende nacionalidades. E como justificativa para alianças não convencionais.

Analistas identificam o padrão: criar inimigo comum externo para consolidar base doméstica. O comunismo, espectro histórico da Guerra Fria, ganha nova vida como adversário unificador da direita latino-americana.

Para o Brasil, a questão prática permanece: até onde chefes de Estado estrangeiros podem participar de processos eleitorais nacionais? A resposta passa por reforma política que o país adia há décadas.