Economia

Tóquio e Washington intervêm no câmbio pela 1ª vez em 13 anos

Tóquio e Washington intervêm no câmbio pela 1ª vez em 13 anos
Foto: valor.globo.com

O Ministério das Finanças do Japão confirmou nesta segunda-feira (3) algo que os mercados já antecipavam desde o fim de semana: Tóquio e Washington atuaram juntos para sustentar o iene. Primeira operação coordenada desde o terremoto de 2011.

A ministra Satsuki Katayama justificou a medida como resposta à "volatilidade excessiva e movimentos desordenados" da moeda japonesa. Traduziu: o iene despencava e o Banco do Japão não tinha munição sozinho.

O que está em jogo

Intervenções cambiais bilaterais são raras. Exigem alinhamento político no topo e diagnóstico compartilhado de risco sistêmico. A última vez que isso ocorreu, o Japão enfrentava crise tripla: terremoto, tsunami e Fukushima. Agora, a ameaça é puramente financeira.

O iene acumulava desvalorização acentuada frente ao dólar nas últimas semanas. Para uma economia exportadora como a japonesa, moeda fraca costuma ser vantagem. Mas há limite. Quando a queda vira colapso de confiança, o Banco Central perde controle sobre inflação importada e custo de rolagem da dívida pública — a maior do mundo desenvolvido em proporção do PIB.

Trump, questionado a bordo do Air Force One no domingo (2), resumiu com pragmatismo característico: "O Japão tinha um iene em desvalorização e queria um pouco de ajuda. Estamos sempre ao lado do Japão".

Precedente e contexto histórico

A intervenção de 2011 envolveu não apenas EUA e Japão, mas também Canadá, Reino Unido e zona do euro. Foi resposta emergencial a choque exógeno. A de agora é diferente: reconhece fragilidade estrutural.

Desde o fim dos acordos de Bretton Woods nos anos 1970, intervenções coordenadas caíram em desuso. O Plaza Accord de 1985 e o Louvre Accord de 1987 foram últimas tentativas de "engenharia cambial" multilateral bem-sucedidas. Depois disso, o G7 passou a preferir "não-intervenção coordenada" — deixar o mercado decidir.

O retorno dessa prática em 2025 sinaliza duas coisas. Primeiro: o Japão está vulnerável. Segundo: os Estados Unidos consideram a estabilidade financeira japonesa interesse estratégico próprio.

Quem ganha, quem perde

No curto prazo, exportadores japoneses perdem competitividade com iene mais forte. Mas o sistema financeiro respira. Fundos de pensão, seguradoras e bancos japoneses carregam trilhões em ativos denominados em ienes. Desvalorização descontrolada ameaça solvência.

Para os EUA, há cálculo geopolítico. Japão fragilizado financeiramente é aliado menos confiável no Pacífico. Com tensões crescentes envolvendo China e Coreia do Norte, Washington não pode se dar ao luxo de ver Tóquio em crise cambial.

Katayama avisou que o governo "não hesitará em adotar novas ações, se necessário". Tradução: as reservas internacionais japonesas estão à disposição. E, agora se sabe, com cobertura americana.

O que vem pela frente

Mercados vão testar a determinação de Tóquio e Washington. Intervenções funcionam quando mudam expectativas. Se investidores acreditarem que o piso está garantido, param de apostar contra o iene. Se não acreditarem, o Banco do Japão terá que queimar reservas indefinidamente.

Há também risco moral. Países emergentes com moedas sob pressão vão cobrar: se o Japão tem direito a ajuda americana, por que não nós?

A resposta, claro, é poder. O Japão é a quarta maior economia do mundo e aliado estratégico vital dos EUA. Tem tratamento preferencial. Sempre teve.

A intervenção de segunda-feira apenas tornou isso explícito novamente.