Economia

Michelle Bolsonaro disputa Senado sem aparecer na convenção

Michelle Bolsonaro disputa Senado sem aparecer na convenção
Foto: infomoney.com.br

A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro não apareceu na convenção que oficializou sua própria candidatura ao Senado por São Paulo. O evento do PL aconteceu sem sua presença física, mas com forte mobilização política em torno de seu nome.

Flávio Bolsonaro, enteado de Michelle e senador pelo Rio de Janeiro, assumiu o protagonismo no palanque. Declarou que precisará da madrasta para "resgatar a democracia" — retórica que ecoa o discursobolsonarista de confronto institucional que marcou o governo de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.

O significado estratégico da ausência

A ausência de Michelle não é mero detalhe protocolar. Revela três camadas da estratégia eleitoral bolsonarista para 2026.

Primeiro: Michelle cultiva imagem de figure acima da política tradicional. Não precisa estar presente em convenções partidárias — é maior que o partido. Essa construção mimetiza a estratégia inicial de Jair Bolsonaro, que se apresentava como outsider mesmo após décadas de Congresso.

Segundo: a candidatura ao Senado funciona como plataforma de projeção nacional, não como projeto estadual paulista. Michelle não precisa fazer corpo a corpo em São Paulo agora. Sua base é digital, evangélica e nacionalmente distribuída.

Terceiro: a ausência gera notícia. O vazio dela produz mais atenção midiática que sua presença protocolar produziria.

Precedente histórico: a estratégia das primeiras-damas

Michelle segue roteiro conhecido na política latino-americana. Primeiras-damas convertem capital simbólico conjugal em capital eleitoral próprio.

No Brasil, Rosângela Matheus, ex-primeira dama do Rio, elegeu-se deputada federal. Mas o paralelo mais forte vem de fora: Cristina Kirchner na Argentina, que foi primeira-dama antes de virar presidente. E Eva Perón, que nunca concorreu mas criou o modelo de poder feminino associado ao líder populista.

Michelle, porém, inova. Diferente de Marcela Temer ou Ruth Cardoso, ela construiu identidade política própria ainda no exercício do mandato presidencial do marido. Comandou pautas evangélicas, fez discursos inflamados e criou persona pública autônoma.

O papel de Flávio: herdeiro ou operador?

A fala de Flávio Bolsonaro na convenção não foi casual. Ele posiciona Michelle como peça central da reconstrução política da família após a derrota de 2022 e a inelegibilidade do pai.

Flávio ocupa papel ambíguo. É senador experiente, mas nunca conseguiu sair da sombra paterna. Michelle, por outro lado, carrega carisma próprio junto à base evangélica — segmento que responde por cerca de 30% do eleitorado brasileiro e cresce a cada ciclo eleitoral.

A frase sobre "resgatar a democracia" não é inocente. Inverte a narrativa: transforma os Bolsonaro de questionadores do sistema eleitoral em defensores da democracia contra um suposto autoritarismo de esquerda. É narrativa para consumo interno da base, não para convencimento de indecisos.

São Paulo como território de disputa

A escolha de São Paulo para a candidatura de Michelle tem lógica eleitoral clara. O estado elege oito senadores ao longo de dois ciclos eleitorais — em 2026, renova uma cadeira apenas.

São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com 34 milhões de eleitores. Ao mesmo tempo, é território historicamente difícil para o bolsonarismo em eleições majoritárias. Bolsonaro perdeu lá em 2022.

Michelle precisa construir ponte com eleitorado urbano de classe média e evangélico da periferia. Seu adversário mais provável será alguém do campo de centro ou de esquerda com forte enraizamento local — perfil oposto ao dela.

Contexto: o bolsonarismo sem Bolsonaro

A candidatura de Michelle acontece em vácuo de liderança. Jair Bolsonaro está inelegível até 2030 por decisão do TSE. O movimento político precisa de rostos competitivos nacionalmente.

O PL, partido que abriga os Bolsonaro desde 2021, vive dilema. É legendas de aluguel que virou veículo de projeto familiar. Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, equilibra-se entre manter a base bolsonarista e ampliar palanques regionais.

Michelle resolve parte desse quebra-cabeça. Traz votos sem trazer o passivo jurídico e político do marido. Mantém a chama acesa sem queimar a largada de 2026.

A convenção sem a candidata, portanto, não foi falha organizacional. Foi estratégia. Michelle Bolsonaro disputará o Senado à sua maneira — digitalmente presente, fisicamente ausente, simbolicamente onipresente.