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Tráfico pinta maritacas de amarelo: a fraude na fauna brasileira

Tráfico pinta maritacas de amarelo: a fraude na fauna brasileira
Foto: G1

Três maritacas chegaram ao centro de reabilitação do Rio de Janeiro com os rostos pintados de amarelo. Não era decoração. Era fraude.

Traficantes de animais silvestres tinturaram as aves para vendê-las como papagaios — espécie que alcança valores três a quatro vezes superiores no mercado clandestino. O resgate aconteceu na Feira de Caxias, epicentro histórico do comércio ilegal de fauna na Baixada Fluminense.

Além da tinta tóxica, os criminosos mutilaram as aves. Cortaram penas das asas e da cauda para impedir fuga durante o transporte.

O significado político da tinta amarela

Este caso aparentemente periférico — três pássaros tingidos numa feira suburbana — cristaliza um colapso institucional mais amplo. O tráfico de animais silvestres movimenta entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões anuais no Brasil, segundo estimativas da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres.

Ocupa o terceiro lugar no ranking de atividades criminosas do país, atrás apenas do tráfico de drogas e armas.

A sofisticação do método — tingir uma espécie para simular outra de maior valor comercial — revela profissionalização das quadrilhas. Não se trata mais de captura oportunista para subsistência. É crime organizado com conhecimento de mercado, logística de distribuição e técnicas de agregação de valor ao produto ilegal.

Precedente histórico: a Feira de Caxias

A Feira de Caxias opera há décadas como plataforma de comércio ilegal de fauna. Desde os anos 1980, autoridades realizam operações intermitentes no local. Apreendem animais. Prendem vendedores. A feira retoma atividades semanas depois.

O padrão repete-se em todo território nacional: Belém, Manaus, Recife, São Paulo. Feiras clandestinas funcionam com conhecimento público, alimentadas por redes de captura no interior e consumidores urbanos.

O médico-veterinário Lucas Rebelo, responsável pelo tratamento das maritacas no Instituto Vida Livre, alerta para as consequências sanitárias da tinta. "Pode causar intoxicação, alteração hepática e alteração renal", explica. Os problemas aparecem gradualmente durante a recuperação.

Uma das três aves já morreu. As outras duas seguem em tratamento, sem previsão de retorno à natureza.

Quem contra quem

De um lado, redes criminosas que operam mercado clandestino bilionário com impunidade estrutural. Do outro, órgãos ambientais federais e estaduais cronicamente desfinanciados, com quadros reduzidos e capacidade operacional limitada.

O Ibama reduziu fiscalização ambiental em 36% entre 2019 e 2023, segundo dados do próprio instituto. Multas aplicadas caíram. Apreensões diminuíram. O tráfico expandiu.

Não se trata de falha individual de servidores. É arquitetura institucional que privilegia baixa capacidade estatal de enforcement em crimes ambientais.

Implicações para reforma institucional

O episódio das maritacas tingidas coloca questão incômoda: como Estado que não consegue impedir venda de pássaros pintados em feira pública pretende enfrentar desmatamento em escala industrial na Amazônia?

A resposta exige reforma mais profunda que ajustes orçamentários. Demanda revisão do pacto federativo ambiental, integração de bases de dados entre órgãos, modernização de legislação penal para crimes contra fauna e criação de varas especializadas.

Requer também mudança cultural. Enquanto posse de animal silvestre permanecer símbolo de status em estratos da população, demanda alimentará oferta criminosa.

As duas maritacas que sobreviveram seguem em gaiolas no Horto, bairro nobre da Zona Sul carioca. Distância geográfica e simbólica separa o centro de reabilitação da Feira de Caxias — menos de 30 quilômetros, mas mundos institucionais distintos.

A tinta amarela aplicada por traficantes desaparecerá com troca natural de plumagem. As penas mutiladas crescerão novamente. Mas a capacidade de voo em ambiente natural pode estar permanentemente comprometida.

Assim como a credibilidade institucional brasileira na proteção de sua biodiversidade.