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Deepfakes pornográficos expõem vazio regulatório da era digital

Deepfakes pornográficos expõem vazio regulatório da era digital
Foto: redir.folha.com.br

Uma atriz nacionalmente reconhecida denuncia publicamente ser vítima sistemática de manipulação digital. Seu rosto aparece em vídeos pornográficos que nunca gravou. Suas declarações são fabricadas por algoritmos. O crime se repete, mas o Estado não consegue responder à altura.

Paolla Oliveira tornou público neste domingo o que dezenas de mulheres brasileiras enfrentam silenciosamente: a violação sistemática através de deepfakes — tecnologia de inteligência artificial que manipula rostos e vozes em vídeos com precisão cada vez maior.

O vácuo entre tecnologia e lei

O relato da atriz ao programa Fantástico expõe uma fissura estrutural no sistema político brasileiro. Enquanto ferramentas de IA generativa avançam exponencialmente, o arcabouço legal permanece ancorado em categorias do século XX.

Difamação, injúria, violação de direitos autorais — os tipos penais existentes não foram desenhados para a era da manipulação algorítmica. O Código Penal de 1940 desconhece a existência de rostos sintéticos.

Esta defasagem não é acidental. É sintoma de uma dinâmica política conhecida: a fragmentação do presidencialismo de coalizão brasileiro dificulta respostas ágeis a desafios emergentes.

Quando a coalizão paralisa

Projetos de lei sobre crimes digitais tramitam no Congresso há anos. Dezenas deles. Cada um reflete interesses de diferentes bancadas, ministérios, grupos de pressão.

O resultado é previsível: nenhum avança. A necessidade de acomodar múltiplos atores em acordos de coalizão transforma urgências em debates intermináveis.

Enquanto isso, a tecnologia não espera. Ferramentas de deepfake que há cinco anos exigiam conhecimento técnico avançado hoje estão disponíveis gratuitamente na internet. Qualquer pessoa com um smartphone pode fabricar realidades falsas.

O caso transcende a esfera individual. Trata-se de teste de capacidade institucional do Estado brasileiro diante da aceleração tecnológica.

Precedente internacional ignorado

A União Europeia aprovou em 2024 o AI Act, primeira legislação abrangente sobre inteligência artificial no Ocidente. Deepfakes pornográficos não consensuais foram explicitamente criminalizados.

Nos Estados Unidos, mesmo sob polarização extrema, 48 estados já possuem leis específicas contra pornografia de vingança digital. Muitos incluem deepfakes.

O Brasil observa, debate, mas não decide. A estrutura de presidencialismo de coalizão, que historicamente permitiu governabilidade através de negociações amplas, mostra seu lado perverso: a lentidão crônica diante de fenômenos que exigem resposta imediata.

Quem paga o preço

As vítimas são majoritariamente mulheres. Atrizes, jornalistas, políticas, influenciadoras — qualquer figura pública feminina torna-se alvo potencial.

Mas o fenômeno já atinge mulheres comuns. Casos de deepfakes pornográficos envolvendo ex-namoradas, colegas de trabalho, desafetos pessoais multiplicam-se nas delegacias especializadas.

A violência é dupla: a fabricação da imagem e a impossibilidade de remoção definitiva. Conteúdo digital replica-se infinitamente. Uma vez na rede, permanece.

O impasse político

Três ministérios reivindicam protagonismo no tema: Justiça, Ciência e Tecnologia, Mulheres. Cada um propõe abordagens diferentes. Nenhum consegue coordenar os demais.

No Congresso, a pauta esbarra em disputas ideológicas adjacentes: regulação de plataformas, liberdade de expressão, limites da vigilância estatal.

A coalizão governamental, necessária para aprovar qualquer legislação substantiva, fragmenta-se em subtemas. O consenso não se forma.

Enquanto isso, Paolla Oliveira e milhares de anônimas seguem expostas a uma forma de violência que o Estado reconhece existir, mas não consegue coibir.

O custo da inação

A ausência de resposta legal efetiva produz efeitos políticos mensuráveis. Deslegitima instituições. Corrói a confiança no sistema representativo. Reforça a percepção de um Estado anacrônico.

O presidencialismo de coalizão brasileiro foi desenhado para processar conflitos através de negociação e acomodação. Mas tecnologias disruptivas não negociam. Elas simplesmente avançam.

A questão deixa de ser se o Brasil regulará deepfakes. É quando — e quantas vítimas serão necessárias para que a máquina política supere sua própria inércia estrutural.