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Brasil fracassa no HIV: infecções sobem 20% em 15 anos

Brasil fracassa no HIV: infecções sobem 20% em 15 anos
Foto: redir.folha.com.br

Vinte por cento. Este é o aumento de novas infecções de HIV no Brasil entre 2010 e 2025, segundo relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). O número expõe um fracasso silencioso: enquanto o país mantém um dos maiores programas públicos de combate à doença no mundo, a epidemia avança.

O paradoxo brasileiro não é novo na saúde pública. Temos estrutura, distribuímos medicamentos gratuitamente desde 1996, conquistamos batalhas judiciais internacionais pela quebra de patentes. Mas os dados da Unaids revelam que infraestrutura não se traduz automaticamente em resultado.

O que mudou na última década

A década analisada coincide com transformações profundas no cenário epidemiológico e político do HIV no Brasil. Três fatores se destacam:

  • Mudança no perfil demográfico das infecções, com aumento expressivo entre jovens de 15 a 24 anos
  • Redução gradual de campanhas nacionais de prevenção, especialmente após 2016
  • Atraso na incorporação de novas tecnologias preventivas, como a profilaxia pré-exposição (PrEP), aprovada apenas em 2017

O Brasil chegou a ser referência global. A política de acesso universal ao tratamento antirretroviral, implementada no governo Fernando Henrique Cardoso, foi elogiada pela OMS e copiada por dezenas de países. Mas referências do passado não blindam contra retrocessos do presente.

Quem paga a conta

O aumento de 20% em novas infecções representa milhares de brasileiros que entrarão no sistema de saúde demandando tratamento contínuo e vitalício. Cada paciente em terapia antirretroviral custa aos cofres públicos entre R$ 8 mil e R$ 15 mil anuais, dependendo do esquema terapêutico.

A matemática é brutal: mais infecções hoje significam mais gastos permanentes amanhã. E isso numa conjuntura de teto de gastos, disputas orçamentárias e pressão fiscal crescente sobre políticas sociais.

Há também o custo invisível. Cada nova infecção representa uma falha em múltiplas camadas: na educação sexual, no acesso a preservativos, na testagem precoce, no combate ao estigma que ainda afasta pessoas dos serviços de saúde.

Os próximos desafios exigem escolhas

O relatório da Unaids não apenas documenta o problema. Ele cobra posicionamento. A resposta ao HIV no Brasil precisa de revisão estratégica, não de mais do mesmo.

Primeiro desafio: alcançar populações-chave. Homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, usuários de drogas e profissionais do sexo concentram parcela desproporcional das novas infecções. Mas programas direcionados enfrentam resistência política e cortes orçamentários.

Segundo: modernizar a prevenção. A PrEP existe, mas a cobertura é insuficiente. Faltam campanhas massivas, sobra desinformação. A profilaxia pós-exposição (PEP) permanece desconhecida da maioria da população.

Terceiro: enfrentar o conservadorismo institucional. Políticas eficazes de prevenção ao HIV esbarram em tabus sobre sexualidade, moralismo religioso em esferas de poder e instrumentalização política da saúde pública.

O precedente que ninguém quer estabelecer

O Brasil corre o risco de se tornar case negativo. De exemplo de sucesso a advertência sobre como programas consolidados podem deteriorar por negligência, descoordenação e falta de atualização estratégica.

Outros países em desenvolvimento observam. Se uma nação com nossa capacidade técnica e histórico de pioneirismo falha, que esperança resta para sistemas de saúde mais frágeis?

A reversão do quadro é possível, mas exige decisões impopulares: redirecionar recursos, enfrentar grupos conservadores, priorizar evidência científica sobre conveniência política. Exige, sobretudo, reconhecer que o combate ao HIV no Brasil deixou de ser case de sucesso.

Os próximos anos dirão se teremos capacidade de autocorreção ou se assistiremos ao desmonte silencioso de uma conquista histórica da saúde pública brasileira.