Folha contrata sociólogo do PCC para colunismo político
A Folha de S.Paulo acaba de contratar Gabriel Feltran, 50 anos, como colunista quinzenal. A estreia acontece nesta segunda-feira (3). O detalhe: Feltran é o sociólogo brasileiro que mais estudou o Primeiro Comando da Capital (PCC) nos últimos vinte anos.
Não se trata de um acadêmico genérico. Feltran mergulhou nas periferias de São Paulo e produziu obras de referência sobre facções criminosas, violência urbana e política nas margens do Estado. Seus livros documentam a ascensão do PCC como instância reguladora em territórios onde a lei formal não alcança.
O que isso significa
A contratação sinaliza uma virada editorial clara. A Folha aposta em vozes que entendem o Brasil para além de Brasília e dos circuitos tradicionais de poder. Feltran representa a academia que suja as mãos — literalmente passou anos em favelas, presídios e bocadas.
Para o leitor, significa acesso a análises sobre temas que o noticiário policial cobre mal: facções, periferias, economia ilegal, violência. São assuntos que movimentam bilhões e afetam milhões, mas raramente recebem tratamento analítico de qualidade na grande imprensa.
O precedente é relevante. Jornais brasileiros historicamente preferem colunistas da elite intelectual paulistana ou carioca. Feltran quebra esse padrão — não por origem, mas por objeto de estudo e metodologia.
Quem é Gabriel Feltran
Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Feltran construiu carreira investigando a sociabilidade violenta. Seu trabalho mais conhecido, "Irmãos: uma história do PCC", mapeia a transformação da facção de gangue prisional a força política paralela.
Ele documenta como o PCC estabeleceu tribunais próprios, códigos de conduta e sistemas de resolução de conflitos em comunidades abandonadas pelo Estado. Não romantiza — descreve. E essa descrição incomoda quem prefere soluções simplistas para problemas complexos.
Feltran também pesquisou tráfico de drogas, milícias e a relação entre crime organizado e política institucional. Seu método: observação participante. Ele conversa com traficantes, detentos, mães de vítimas, policiais. Depois transforma essas vozes em análise sociológica rigorosa.
Contexto político de fundo
A contratação acontece quando o debate sobre segurança pública no Brasil atinge ponto crítico. Facções controlam territórios em todos os estados. A violência policial bate recordes. As prisões explodem em população carcerária. E as soluções propostas — à direita e à esquerda — seguem desconectadas da realidade empírica.
Feltran oferece algo raro: conhecimento de campo. Ele entende por dentro como funcionam as estruturas de poder nas periferias brasileiras. Esse conhecimento é político, no sentido profundo — trata de quem manda, como manda e por quê.
A Folha, ao abrir espaço quinzenal para essa perspectiva, reconhece que o Brasil real escapa das categorias convencionais. Não é esquerda versus direita. É Estado versus crime organizado versus milícia versus facção versus comunidade versus polícia. E Feltran estudou essas intersecções como poucos.
O risco editorial
Contratar quem estuda facções criminosas gera polêmica garantida. Críticos já acusaram Feltran de "dar voz ao crime" ou "legitimar bandidos". É previsível que setores mais conservadores ataquem a Folha pela escolha.
Mas o jornal aparentemente decidiu que jornalismo sério sobre crime organizado exige justamente o que Feltran oferece: compreensão sem conivência. Entender como o PCC funciona não é apoiá-lo. É condição básica para qualquer política pública eficaz.
A aposta é clara: leitores interessados em análise de qualidade sobre segurança pública, periferias e violência vão valorizar a coluna. E o resto pode reclamar — mas vai ler.
Para quem isso importa
Importa para gestores públicos que precisam entender territórios conflagrados. Para policiais que operam em áreas de facção. Para acadêmicos de ciências sociais. Para jornalistas que cobrem segurança pública. E para qualquer brasileiro cansado de análises superficiais sobre violência.
Feltran traz empiria onde abundam opiniões. Dados onde proliferam achismos. E incômodo onde reina a zona de conforto ideológico.
A Folha, com essa contratação, reconhece que o editorial político brasileiro precisa incluir as margens. Porque é justamente nas margens que se decide muito do que acontece no centro.