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Tiros entre vizinhos em Diadema expõem vácuo do judiciário

Tiros entre vizinhos em Diadema expõem vácuo do judiciário
Foto: redir.folha.com.br

Um homem de 35 anos morreu após trocar tiros com um vizinho na rua Equador, região central de Diadema, Grande São Paulo, no domingo (2). A Polícia Civil investiga.

O que poderia ter sido resolvido em uma audiência de conciliação terminou em morgue.

O Colapso da Mediação Institucional

A cena é emblemática de um fenômeno mais amplo: a privatização da violência em áreas urbanas densas. Quando o Estado — especificamente o poder judiciário — não oferece canais ágeis para resolução de conflitos cotidianos, cidadãos armam-se e fazem justiça própria.

Diadema, com 400 mil habitantes espremidos em 30 km², é laboratório dessa dinâmica. Alta densidade populacional. Proximidade forçada entre desconhecidos. E um judiciário que leva meses, às vezes anos, para julgar questões de perturbação de sossego, invasão de privacidade ou disputas de divisa.

O resultado: 35 anos de vida encerrados em uma manhã de domingo.

Precedente Histórico: A Faroeste Urbano

Não é novidade. No Brasil Império, a ausência de tribunais efetivos no interior levou ao coronelismo armado. No século XXI, a ausência de justiça rápida nos bairros periféricos metropolitanos recria a mesma lógica.

A diferença: antes, era o fazendeiro contra o posseiro. Agora, é o morador do 201 contra o do 203.

O antropólogo Roberto DaMatta identificou nos anos 1980 a tendência brasileira de resolver conflitos "na rua" — esfera da violência — quando a "casa" (esfera privada) e o "tribunal" (esfera pública formal) falham. Estamos vendo isso literalmente.

O Que Isso Significa Para o Judiciário

Três implicações diretas:

  • Sobrecarga crônica: Tribunais estaduais acumulam processos. Em São Paulo, o tempo médio de tramitação em primeira instância ultrapassa 3 anos. Para conflitos de vizinhança, isso é eternidade.
  • Ausência de juizados de proximidade: Diferente da França ou Portugal, o Brasil não desenvolveu estrutura de mediação hiperlocal. Juizados Especiais existem, mas estão distantes e burocratizados.
  • Cultura litigiosa sem solução: Brasileiros recorrem pouco à Justiça para pequenos conflitos exatamente por desconfiança na efetividade. E quando a pressão explode, explodem armas.

A Política de Segurança Ignorada

Governadores falam em policiamento ostensivo. Prefeitos, em câmeras de vigilância. Mas ninguém fala em criar varas itinerantes de mediação comunitária.

A prevenção da violência urbana passa, necessariamente, por um judiciário acessível. Não apenas fisicamente, mas temporalmente. Conflitos que demoram anos para serem resolvidos alimentam ciclos de vingança privada.

Diadema já foi case de sucesso na redução de homicídios nos anos 2000, com políticas de desarme e controle de horário de bares. Mas a violência migrou para dentro dos condomínios, para dentro das quadras residenciais — onde o Estado judiciário não entra.

O Contexto Mais Amplo

Este caso individual espelha uma crise estrutural. O Brasil tem 80 milhões de processos em tramitação. A Justiça está entupida de execuções fiscais, disputas contratuais, ações previdenciárias.

Enquanto isso, um homem discute com o vizinho. A discussão esquenta. Não há a quem recorrer que resolva em tempo hábil. Ambos possuem armas — legais ou ilegais, pouco importa. E a tragédia se consuma.

O poder judiciário brasileiro precisa decidir: quer julgar rapidamente pequenos conflitos que evitam tragédias ou quer continuar julgando lentamente grandes processos que chegam tarde demais?

Na rua Equador, em Diadema, a resposta veio em forma de tiro.