Tarifaço de Trump expõe fragilidade do presidencialismo brasileiro
US$ 3 bilhões em exportações paulistas estão na mira das tarifas americanas de 25%. Sozinho, São Paulo concentra 41,6% do impacto total do tarifaço anunciado por Washington contra o Brasil. Somado a Santa Catarina, os dois estados respondem por 52% dos US$ 7,4 bilhões afetados.
O golpe tarifário revela mais do que números comerciais. Expõe a fragilidade estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro diante de choques econômicos externos concentrados regionalmente.
A geometria política do impacto
São Paulo e Santa Catarina não são apenas potências exportadoras. São epicentros de poder político nacional. O primeiro concentra a maior bancada federal do país. O segundo representa o industrialismo do Sul, historicamente articulado em blocos suprapartidários no Congresso.
Quando Washington atinge essas economias, atinge simultaneamente a base de sustentação legislativa de qualquer governo federal. A retaliação comercial se transforma em crise de governabilidade.
O presidencialismo de coalizão opera sob lógica distributiva. Governos montam maiorias parlamentares distribuindo recursos, cargos e políticas setoriais entre múltiplos partidos. O sistema funciona em ambiente de crescimento ou estabilidade.
Desmorona sob pressão externa concentrada.
Precedente histórico: quando governos caem por fora
A história política brasileira registra três momentos em que choques econômicos externos detonaram crises de governabilidade: a maxidesvalorização cambial de 1999, o taper tantrum de 2013 e a reversão de commodities em 2014-2015.
Nos três casos, governos perderam capacidade de manter coalizões. Bases regionais se fragmentaram. Bancadas estaduais romperam disciplinas partidárias quando suas economias locais sangraram.
O tarifaço de Trump reativa esse padrão. Governadores de estados exportadores pressionam por respostas federais imediatas. Deputados federais paulistas e catarinenses cobram medidas compensatórias. A coalizão presidencial enfrenta tensão centrífuga.
A aritmética impossível da retaliação
Retaliar exige unidade política. O presidencialismo de coalizão brasileiro opera com 22 partidos representados no Congresso. Cada legenda responde a bases regionais e setoriais distintas.
Produtores gaúchos de soja têm interesses divergentes de industriais paulistas. Exportadores catarinenses de proteína animal competem por recursos federais com cafeicultores mineiros. Montar resposta coordenada nesse mosaico é exercício de alta complexidade.
Governos parlamentaristas europeus enfrentam tarifas americanas com gabinetes coesos. Primeiro-ministros comandam maiorias disciplinadas. Decidem, executam, ajustam rapidamente.
No Brasil, o Executivo negocia cada medida com lideranças partidárias, governadores, setores produtivos e bancadas temáticas. O processo é lento. A resposta, frequentemente diluída em compromissos que agradam a todos e protegem ninguém efetivamente.
O federalismo amplifica a crise
São Paulo e Santa Catarina não sofrem passivamente. Seus governos estaduais pressionam Brasília por compensações fiscais, linhas de crédito, desoneração tributária.
Outros estados observam. Se o governo federal ceder a SP e SC, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais exigirão tratamento equivalente. A política tarifária se transforma em queda de braço federativa.
O presidencialismo de coalizão não possui instrumentos constitucionais para impor coordenação vertical entre União e estados. Governadores negociam politicamente, não obedecem hierarquicamente. Cada crise externa vira leilão de demandas regionais.
O que está em jogo
Para empresas paulistas e catarinenses, o tarifaço significa perda imediata de competitividade no mercado americano. Para o sistema político brasileiro, representa teste de capacidade de ação coordenada sob pressão.
O presidencialismo de coalizão sobrevive distribuindo ganhos em tempos bons. Sua verdadeira prova é distribuir perdas em tempos ruins sem implodir.
Trump acabou de aplicar o exame. A nota virá nos próximos meses, quando ficar claro se Brasília conseguiu ou não proteger suas principais bases exportadoras sem desmontar alianças internas.
A história sugere ceticismo.