Economia

Tarifaço de Trump expõe fragilidade da coalizão brasileira

Tarifaço de Trump expõe fragilidade da coalizão brasileira
Foto: moneytimes.com.br

US$ 7,4 bilhões em vendas brasileiras acabam de entrar na linha de tiro das tarifas americanas de 25%. Mais da metade desse impacto recai sobre apenas dois estados: São Paulo e Santa Catarina. O dado expõe não apenas uma vulnerabilidade comercial, mas a fragilidade estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro diante de choques externos.

São Paulo sozinho responde por US$ 3 bilhões do total atingido — 41,6% das exportações afetadas. Santa Catarina completa o quadro com mais 10,4% do montante. Enquanto isso, Brasília segue o roteiro conhecido: articulação política fragmentada, ministérios negociando em paralelo, e ausência de resposta coordenada.

Geografia do Impacto

A concentração geográfica do tarifaço americano não é acidente. São Paulo e Santa Catarina lideram a pauta exportadora brasileira justamente nos setores que Washington decidiu atacar. A assimetria é brutal: dois estados bancam mais da metade do custo político de uma guerra comercial decidida a 10 mil quilômetros de distância.

O presidencialismo de coalizão, modelo que sustenta a governabilidade brasileira desde a redemocratização, foi desenhado para administrar conflitos internos. Não foi pensado para enfrentar ataques comerciais coordenados de superpotências.

A arquitetura institucional brasileira distribui poder entre dezenas de partidos e centenas de parlamentares. Funciona razoavelmente bem para aprovar orçamentos e reformas domésticas. Desmorona quando a velocidade de resposta precisa ser medida em dias, não em meses de negociação congressual.

O Precedente Perigoso

Este tarifaço estabelece um precedente crítico. Pela primeira vez em décadas, estados brasileiros economicamente relevantes enfrentam sanções comerciais significativas de forma concentrada. A última vez que algo similar ocorreu foi durante as rodadas de retaliação na OMC nos anos 2000 — mas em escala muito menor.

A diferença agora é política. Trump ignora multilateralismo. Age por decreto. E o Brasil responde com o ritmo de sempre: comissões, reuniões ministeriais, articulação com o Congresso. A velocidade não combina.

Governadores de São Paulo e Santa Catarina já sinalizaram que irão pressionar o Planalto. Querem respostas. Querem compensações. Querem protagonismo na negociação. E aqui mora o problema estrutural do presidencialismo de coalizão: cada ator político tem poder de veto, mas ninguém tem comando unificado.

Quem Paga a Conta

Empresários paulistas e catarinenses não estão interessados em teoria política. Querem saber quem vai compensar os US$ 3,8 bilhões que podem evaporar. A conta pode ser paga de três formas: desvalorização cambial (que corrói renda de todos), subsídios fiscais (que explodem o déficit público), ou redirecionamento de mercados (que leva anos).

Nenhuma das três opções é palatável. Todas exigem decisão rápida e coordenação federativa que o modelo brasileiro não entrega com facilidade.

A coalizão governamental terá que escolher. Proteger São Paulo e Santa Catarina significa alocar recursos que outros estados cobiçam. Ignorar os dois gigantes exportadores significa criar uma crise política em estados que concentram poder econômico e eleitoral.

A Armadilha Institucional

O presidencialismo de coalizão brasileiro opera por consenso amplo. Trump opera por imposição unilateral. O descompasso é fatal.

Enquanto Brasília articula uma resposta que satisfaça 15 partidos da base aliada, Washington já terá anunciado três novos tarifaços. A arquitetura política brasileira, desenhada para estabilidade interna, vira passivo estratégico em conflitos comerciais do século XXI.

São Paulo e Santa Catarina estão descobrindo, da pior forma, que o federalismo brasileiro é assimétrico apenas nos benefícios. Na hora de bancar os custos de crises externas, a conta é proporcional ao tamanho da economia. E a capacidade de resposta do governo federal segue sendo proporcional ao tamanho da coalizão — isto é, lenta e fragmentada.

O tarifaço de Trump não é apenas uma questão comercial. É um teste de estresse ao modelo político brasileiro. E os primeiros resultados não são animadores.