Ratinho Jr. distribui R$ 3,5 bi em estradas a 5 meses da eleição
O governador do Paraná, Ratinho Junior, acaba de formalizar R$ 3,56 bilhões em convênios para pavimentar estradas rurais em 272 municípios paranaenses. São 2.639 quilômetros de asfalto. O timing? Agosto de 2026, a exatos cinco meses das eleições gerais.
A coincidência não é casual. Trata-se de um padrão clássico da política brasileira: a aceleração de investimentos de alta visibilidade territorial no ciclo final de mandatos. O fenômeno tem nome na ciência política — pork barrel tardio, ou distribuição estratégica de recursos públicos com dupla finalidade: atender demandas locais e construir capital político para sucessores ou coligações.
O que está em jogo
Ratinho Junior não concorre à reeleição em 2026. Mas seu grupo político sim. O governador está no segundo mandato, tem aprovação consistente acima de 60% nas últimas pesquisas estaduais e precisa transferir esse ativo para candidatos aliados — tanto ao Senado quanto ao governo estadual.
Estradas rurais são a moeda mais valiosa nessa transação. Diferente de obras urbanas complexas, a pavimentação de vias rurais produz impacto imediato e visual. Atinge prefeitos, produtores rurais, cooperativas e agroindústrias — bases eleitorais fundamentais no interior paranaense, onde se decide a geografia do poder estadual.
Os 272 municípios beneficiados representam 68% das 399 cidades do Paraná. É uma cobertura territorial impressionante. E estratégica: pulveriza benefícios, multiplica agradecimentos, constrói lealdades.
Precedente histórico
A prática não é nova. Desde a redemocratização, governadores brasileiros utilizam o último ano de mandato para consolidar legados e pavimentar — literal e figurativamente — sucessões políticas.
Em São Paulo, José Serra distribuiu obras do metrô em 2006. No Rio Grande do Sul, Yeda Crusius acelerou convênios rodoviários em 2010. Geraldo Alckmin, em 2018, bateu recorde de inaugurações no interior paulista. O padrão se repete: investimentos concentrados, territorialização ampla, calendário eleitoral.
O que torna o caso Ratinho Junior relevante é a escala e o setor escolhido. O agronegócio paranaense movimenta R$ 200 bilhões anuais. Estradas rurais são infraestrutura crítica para escoamento de safras. Conectar produtores à malha viária estadual não é apenas política — é economia real.
A reforma política que não veio
Esse tipo de manobra expõe uma fragilidade estrutural do sistema político brasileiro: a ausência de regras claras sobre execução orçamentária em anos eleitorais. Diferente de outros países, o Brasil não impõe restrições temporais rígidas para contratação de obras públicas em períodos pré-eleitorais.
A Lei Eleitoral proíbe inaugurações três meses antes do pleito. Mas não impede a assinatura de convênios, contratos ou ordens de serviço. O resultado? Uma janela de cinco meses (junho a outubro do ano eleitoral) onde governantes aceleram ao máximo anúncios de investimentos.
Propostas de reforma política discutidas no Congresso desde 2015 incluíam limitações a esse tipo de prática. Nenhuma prosperou. A resistência vem de todos os espectros ideológicos — porque todos se beneficiam do modelo atual.
Quem ganha, quem perde
Os beneficiários diretos são evidentes: prefeitos aliados ganham obras, produtores rurais ganham acesso, o governador ganha capital político transferível. A máquina pública estadual ganha execução orçamentária (governadores detestam devolver recursos não utilizados).
Os perdedores são mais difusos. Contribuintes que financiam investimentos com motivação eleitoral explícita. Municípios não incluídos na lista — 127 cidades paranaenses ficaram de fora. E o debate público sobre critérios técnicos versus políticos na alocação de recursos escassos.
Ratinho Junior não viola nenhuma lei. Não comete irregularidade. Apenas utiliza, com competência, as ferramentas que o sistema político brasileiro oferece a quem ocupa cadeiras executivas em anos eleitorais.
O problema não é o governador. É o sistema que permite — e incentiva — esse tipo de cálculo.
"A política de estradas é a política do voto pavimentado. Sempre foi, sempre será — enquanto não mudarmos as regras do jogo."
Enquanto a reforma política brasileira permanecer como promessa adiada, cenas como essa se repetirão a cada ciclo eleitoral. Com governadores de todos os partidos. Em todos os estados. Seguindo o mesmo roteiro: investimentos, inaugurações, eleições.