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Morre João Sanches aos 47 anos: a perda do teatro político baiano

Morre João Sanches aos 47 anos: a perda do teatro político baiano
Foto: redir.folha.com.br

O teatro brasileiro perdeu neste domingo (19) um de seus mais agudos observadores do poder institucional. João Sanches morreu aos 47 anos em Salvador, deixando como legado uma obra que dissecava as estruturas de autoridade com bisturi dramatúrgico.

A Fundação Gregório de Mattos confirmou o falecimento. Não divulgou a causa.

O dramaturgo das instituições

Sanches construiu reputação nacional com "Boca a Boca - Um Solo para Gregório", peça que transformou a figura do poeta baiano Gregório de Mattos em veículo para questionar hierarquias coloniais que, segundo o dramaturgo, permaneciam vivas nas estruturas contemporâneas de poder.

A escolha não era inocente. Gregório de Mattos viveu no século XVII criticando governadores e bispos. Sanches via paralelos diretos com os embates institucionais do século XXI.

Em entrevistas, o dramaturgo afirmava que "o teatro político brasileiro morreu quando decidiu pregar para convertidos". Sua proposta era diferente: mostrar as engrenagens do poder para quem estava fora delas.

Teatro como análise institucional

A abordagem de Sanches dialogava com uma tradição que vem de Oduvaldo Vianna Filho e passa por Dias Gomes. Mas tinha diferença crucial: menos panfleto, mais anatomia.

Suas peças funcionavam como autópsias de crises institucionais. Dissecavam conflitos entre Executivo e Legislativo, Judiciário e opinião pública, Estado e sociedade civil.

"Um Solo para Gregório" estreou em 2018, momento em que o país vivia polarização aguda entre instituições. A peça não tomava partido explícito. Mostrava como os mesmos padrões de confronto se repetiam há três séculos.

A Bahia como laboratório político

Salvador era mais que cenário para Sanches. Era objeto de estudo.

A Fundação Gregório de Mattos, que anunciou sua morte, foi criada em 1986 para gerir políticas culturais municipais. Sanches a via como microcosmo: instituição pública atravessada por disputas partidárias, orçamentárias, ideológicas.

Parte significativa de sua obra tratava dessas tensões. Como fundações culturais sobrevivem a mudanças de gestão? Como políticas públicas de cultura negociam com mercado? Quem define o que é "cultura legítima"?

Eram questões que ecoavam debates nacionais sobre autonomia institucional e interferência política.

Geração perdida

Sanches integrava geração de dramaturgos formada nos anos 2000, quando políticas culturais federais criaram circuito de financiamento robusto para teatro. Leis de incentivo, editais, prêmios.

Essa infraestrutura permitiu que artistas construíssem carreiras fora do eixo Rio-São Paulo. Bahia, Pernambuco, Minas produziram dramaturgia consistente.

O desmonte parcial desse sistema após 2016 colocou pressão inédita sobre a geração. Muitos migraram para audiovisual. Outros abandonaram a profissão.

Sanches resistiu. Sua última direção foi montagem em 2025 sobre crises orçamentárias em universidades públicas. Estreou em teatro universitário de Salvador com elenco de estudantes.

A ironia não passou despercebida: peça sobre cortes orçamentários encenada em instituição que sofria cortes.

Legado analítico

A morte aos 47 anos interrompe trajetória que amadurecia. Sanches começava a ser reconhecido nacionalmente quando o teatro brasileiro busca novas linguagens para tratar de política sem cair em maniqueísmo.

Sua contribuição foi mostrar que teatro político não precisa simplificar. Pode complexificar. Pode ser ferramenta de análise institucional tão rigorosa quanto paper acadêmico, mas acessível a públicos mais amplos.

Fica a pergunta: quem continuará esse projeto? O teatro brasileiro tem excesso de militância e escassez de análise. Sanches oferecia a segunda sem descartar compromisso político.

Salvador enterra nesta segunda-feira não apenas um dramaturgo. Enterra uma forma específica de pensar teatro como laboratório para entender estruturas de poder.

Em tempos de polarização institucional crescente, perde-se quem tentava explicar as engrenagens por trás das manchetes.