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Michelle e Kicis disputam Senado: PL testa força no DF

Michelle e Kicis disputam Senado: PL testa força no DF
Foto: G1

O Partido Liberal colocou duas candidatas na mesma disputa pelo Senado no Distrito Federal. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram oficializadas neste domingo (2) na convenção partidária em Brasília. Duas vagas. Duas bolsonaristas. Uma escolha inevitável para o eleitor.

A decisão encerra semanas de tensão interna. Michelle chegou a avaliar deixar o PL após conflitos com Flávio Bolsonaro, enteado e presidenciável em 2026. Renunciou à presidência do PL Mulher. Disse a aliadas que esperava um "sinal divino" para confirmar a candidatura.

O sinal veio. Ou o partido calculou que perder a ex-primeira-dama custaria caro demais.

O peso simbólico da dupla

Michelle Bolsonaro nunca disputou uma eleição. Natural de Ceilândia, casou-se com Jair Bolsonaro em 2007, quando ele ainda era deputado federal. Seu capital político vem do período no Planalto: discursos em atos, presença em agendas evangélicas, protagonismo em políticas voltadas ao público feminino.

Bia Kicis, por outro lado, é deputada federal desde 2019. Advogada, ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, tornou-se símbolo da defesa bolsonarista em embates institucionais. Seu nome é citado em investigações sobre atos antidemocráticos de 8 de janeiro.

As duas representam flancos diferentes do bolsonarismo. Michelle: apelo popular, moral, religioso. Kicis: combatividade jurídica, confronto institucional.

A estratégia eleitoral

O PL aposta na dupla para ampliar votos entre mulheres, segmento em que o bolsonarismo historicamente patina. Michelle foi escolhida para presidir o PL Mulher justamente com esse objetivo. A renúncia ao cargo não apagou a expectativa do partido sobre seu desempenho nas urnas.

Brasília é um laboratório. O Distrito Federal concentra servidores públicos, militares, evangélicos — base eleitoral tradicional de Bolsonaro. Em 2022, Jair venceu no DF com 68% dos votos válidos no segundo turno.

Mas o cenário de 2026 é outro. Bolsonaro está inelegível até 2030. O PL precisa provar que seu projeto político sobrevive sem o líder no palanque. Michelle e Kicis são peças desse teste.

Tensões internas e o projeto de poder

A crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro expôs fraturas internas. Flávio articula sua candidatura presidencial desde 2023, busca controlar o comando partidário e projeta aliados estratégicos. Michelle, embora esposa do ex-presidente, não é aliada automática do enteado.

A disputa pelo Senado no DF tornou-se, assim, um termômetro. Se Michelle vencer, consolida poder próprio. Se Flávio conseguir influenciar o resultado a favor de Kicis ou outro nome, demonstra controle sobre a máquina.

O PL administra esse cabo de guerra sem romper. Por ora.

Contexto institucional: STF e Congresso

A candidatura de Kicis ganha contornos específicos. Ela protagonizou embates diretos com o Supremo Tribunal Federal, questionou decisões de Alexandre de Moraes, defendeu anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro.

Se eleita ao Senado, Kicis terá voto direto em sabatinas de ministros do STF, na tramitação de propostas que afetam o Judiciário e em eventual impeachment de magistrados — pauta cara ao bolsonarismo raiz.

Michelle tem perfil menos beligerante, mas seu discurso conservador agrada à mesma base. Juntas, representam dois modos de confronto institucional: o direto e o simbólico.

Precedente e significado

A dupla candidatura do PL no DF não tem paralelo recente no partido. Expor duas figuras de peso na mesma disputa é aposta de saturação: garantir pelo menos uma vaga, quiçá ambas.

Para o eleitorado bolsonarista, a escolha oferece nuances dentro do mesmo campo ideológico. Para adversários, representa a consolidação do domínio do PL sobre a direita brasiliense.

Michelle estreia nas urnas com palanque pronto e estrutura montada. Kicis busca novo mandato com blindagem do partido. O Distrito Federal decidirá qual bolsonarismo prefere — ou se há espaço para ambos.

O PL sabe que 2026 começa agora. E que Brasília é vitrine obrigatória.