Economia

Fluxo para IA nos EUA ameaça Bolsa enquanto coalizão trava

Fluxo para IA nos EUA ameaça Bolsa enquanto coalizão trava
Foto: moneytimes.com.br

O Brasil enfrenta uma tempestade perfeita. Enquanto a coalizão presidencial trava em Brasília sem entregar reformas estruturantes, Wall Street se prepara para exibir os resultados trimestrais das gigantes de inteligência artificial — empresas que podem sugar o capital estrangeiro que ainda circula por mercados emergentes.

A temporada de balanços do segundo trimestre de 2025 começa esta semana com expectativas elevadas. Para o analista Thiago Salomão, fundador do Market Makers, o melhor cenário para a Bolsa brasileira seria uma safra neutra de resultados corporativos americanos. Bons números, especialmente do setor de tecnologia, funcionam como ímã de dólares.

"Diante da conjuntura atual de incertezas — com alta do preço de petróleo, disputas comerciais e eleições —, resultados positivos lá fora pioram nossa posição relativa", afirmou Salomão no programa Giro do Mercado.

O contexto político que agrava a sangria

A fragilidade da coalizão presidencial amplia a vulnerabilidade brasileira. Sem avanços concretos em pautas fiscais e com ruídos constantes entre Executivo e Legislativo, o país perde atratividade justamente quando precisa competir por capital global.

A comparação é brutal. Nos Estados Unidos, empresas de inteligência artificial registram margens crescentes e narrativas de crescimento exponencial. No Brasil, a coalizão que deveria garantir governabilidade mal consegue aprovar medidas básicas de contenção de gastos.

Investidores institucionais operam com lógica simples: diante de incerteza política doméstica e retornos robustos em setores de ponta nos EUA, a escolha se torna óbvia. O fluxo migra.

Precedente histórico preocupa

A dinâmica atual remete ao período entre 2013 e 2015, quando a deterioração fiscal e a paralisia política esvaziaram a Bolsa brasileira mesmo com liquidez abundante no mundo. Naquela ocasião, a coalizão presidencial também se mostrou incapaz de entregar reformas enquanto mercados externos ofereciam alternativas mais seguras.

A diferença é que, desta vez, a competição não vem apenas de títulos do Tesouro americano ou commodities. Vem de um setor tecnológico em plena revolução, com empresas que prometem remodelar a economia global.

Petróleo acima de US$ 80, tensões comerciais entre potências e calendário eleitoral doméstico completam o quadro adverso. São três vetores de volatilidade simultâneos, cada um capaz de afugentar capital de risco.

O que está em jogo

Para gestores de fundos, a equação é clara:

  • Risco político elevado no Brasil, com coalizão presidencial fragmentada
  • Ausência de agenda reformista crível
  • Retornos potenciais menores que alternativas em dólar
  • Narrativa de crescimento concentrada em IA e tecnologia americana

A temporada de balanços funcionará como teste de estresse. Se as big techs entregarem resultados sólidos — e as projeções apontam nessa direção —, a pressão sobre ativos brasileiros se intensifica.

Analistas observam que a janela para o Brasil reagir é estreita. A coalizão presidencial precisaria demonstrar capacidade de articulação e entrega ainda no segundo semestre. Sem isso, o cenário de esvaziamento da Bolsa deixa de ser risco para se tornar tendência consolidada.

O mercado não espera milagres. Espera previsibilidade. E uma coalizão funcional é o mínimo necessário para competir por capital em ambiente global hostil.