Flávio Bolsonaro negocia vice em SP enquanto Tarcísio joga duplo
Faltam cinco dias para Flávio Bolsonaro oficializar sua candidatura à Presidência. Ele ainda não tem vice. Na segunda-feira (20), o senador do PL esteve em São Paulo na convenção da federação União Brasil-PP, ao lado do governador Tarcísio de Freitas. A cena expõe o estado atual da articulação política à direita: negociações abertas, sinais ambíguos, alianças em construção.
O que estava em jogo na convenção
Flávio Bolsonaro precisa de partidos além do PL. O Republicanos de Tarcísio e a federação União-PP podem ficar neutros nacionalmente, liberando diretórios estaduais para apoiá-lo. Essa estratégia — neutralidade no topo, adesão na base — tornou-se padrão desde que a reforma política brasileira permitiu federações partidárias em 2021.
A federação União-PP controla 91 deputados federais. O Republicanos tem 44. Juntos, representam 135 votos na Câmara, quase um quarto do plenário. Para Flávio, que herdou a estrutura do pai mas não seu carisma eleitoral, esses números são vitais.
Tarcísio mantém o jogo em aberto
O governador paulista fez acenos ao senador e a Jair Bolsonaro. Mas não comprometeu o Republicanos. Tarcísio opera dentro da lógica que domina Brasília desde o fim do ciclo PT-PSDB: partidos como plataformas de negociação, não como veículos ideológicos.
Essa postura tem precedente. Em 2022, o Republicanos apoiou Bolsonaro nacionalmente mas negociou cargos com governadores de outras coligações. A reforma política de 2017, que endureceu regras de coligações proporcionais, e a criação das federações em 2021 consolidaram esse padrão: flexibilidade nacional, pragmatismo local.
Para Tarcísio, manter-se ambíguo significa preservar margem de manobra. Se Flávio fracassar nas pesquisas, o governador pode recuar. Se o senador crescer, pode embarcar.
A fragilidade da candidatura Flávio
A convenção do PL que oficializará Flávio acontece no sábado (25). Ele chegará sem vice definida. Isso não é apenas um detalhe de calendário. É sintoma.
Candidatos presidenciais viáveis definem vices antes das convenções. Flávio Bolsonaro não conseguiu. Ele negocia com União Brasil, PP e Republicanos simultaneamente, sem fechar com nenhum. A dificuldade reflete sua posição: reconhecimento de sobrenome, mas capital político próprio limitado.
Flávio nunca administrou uma cidade ou estado. Sua biografia legislativa é modesta. Sua base eleitoral está concentrada no Rio de Janeiro. Nacionalmente, ele depende da herança paterna — uma herança que inclui a inelegibilidade de Jair Bolsonaro e a fragmentação da direita após 2022.
União-PP: quem manda na federação
A federação entre União Brasil e PP é recente, formalizada em 2025. Reúne dois partidos historicamente fisiológicos: o União, resultado da fusão DEM-PSL, e o PP, antigo PPB dos anos 1990.
Luciano Bivar comanda o União. Ciro Nogueira o PP. Ambos são quadros que atravessaram sucessivos ciclos políticos se adaptando. Não têm compromisso ideológico rígido. Negociam poder.
Para eles, apoiar Flávio nacionalmente é arriscado sem contrapartidas claras. Neutralidade formal com apoio estadual seletivo é a estratégia de menor custo. Isso permite capitalizar localmente onde Flávio for forte, sem amarrar o partido a uma candidatura que pode naufragar.
O que isso revela sobre reforma política no Brasil
A cena de segunda-feira — Flávio discursando, Tarcísio acenando, dirigentes partidários calculando — ilustra o funcionamento da reforma política brasileira pós-2017. As mudanças legais buscavam reduzir fragmentação e fortalecer partidos. O efeito foi oposto.
Federações e cláusulas de barreira incentivaram fusões formais sem unidade programática. Partidos viraram Holdings de poder. A negociação substituiu a ideologia como moeda política dominante.
Flávio Bolsonaro é produto e prisioneiro desse sistema. Ele precisa dessas legendas. Mas não pode confiar nelas. Elas negociam com ele enquanto mantêm canais abertos com adversários.
A convenção de segunda não definiu alianças. Mostrou a geometria variável da política brasileira contemporânea: todos conversam com todos, ninguém se compromete até o último momento, o pragmatismo vence a coerência.
Faltam cinco dias para Flávio oficializar sua candidatura. As negociações continuam.