Economia

Flávio Bolsonaro lidera culpa por crise com EUA, diz pesquisa

Flávio Bolsonaro lidera culpa por crise com EUA, diz pesquisa
Foto: moneytimes.com.br

Trinta por cento dos brasileiros apontam Flávio Bolsonaro como principal responsável pela crise comercial com os Estados Unidos. O presidente Lula vem logo atrás, com 28%. Os números são da Indexa Pesquisas, divulgados nesta terça-feira (21).

O dado surpreende menos pela margem técnica entre os dois nomes e mais pelo que revela sobre a fragmentação da opinião pública brasileira diante de crises diplomáticas.

A anatomia de uma culpabilização coletiva

A pesquisa captura um momento raro: a polarização política tradicional — governo versus oposição — se dissolve diante de um terceiro ator externo. Washington impôs tarifas. Brasília reagiu. Mas o público dividiu responsabilidades entre um senador da oposição e o chefe de Estado.

Flávio Bolsonaro protagonizou declarações inflamadas sobre a relação com a administração Trump. Suas falas reverberaram em círculos conservadores e na mídia tradicional. Para parte significativa do eleitorado, essas manifestações teriam agravado o cenário.

Lula, por sua vez, carrega o ônus institucional. É o presidente. Toda crise externa, por definição, recai sobre quem ocupa o Palácio do Planalto. Seus 28% refletem menos ações específicas e mais a responsabilidade simbólica do cargo.

Precedentes de crises comerciais e percepção pública

Historicamente, presidentes brasileiros absorvem o desgaste de atritos com Washington. Fernando Collor enfrentou pressões por propriedade intelectual. Dilma Rousseff sofreu com o caso Snowden. Bolsonaro foi poupado parcialmente por sua aproximação ideológica com Trump.

Mas este caso traz novidade: um parlamentar — não o presidente — divide o topo da reprovação pública.

A explicação passa pela força das redes sociais e pela projeção nacional de Flávio Bolsonaro. Ele não é um senador qualquer. É filho de ex-presidente, líder de opinião da direita, presença constante no debate digital.

Suas declarações sobre política externa ecoam como se viessem de um ator governamental, mesmo estando na oposição.

O que está em jogo além dos números

A divisão quase equitativa entre Flávio e Lula expõe a confusão narrativa que domina o debate brasileiro sobre política externa.

Para os 30% que culpam Flávio, ele teria instigado desnecessariamente uma relação já tensa. Para os 28% que responsabilizam Lula, o governo falhou em conter a escalada ou em construir pontes com a Casa Branca.

Ambas as leituras têm lastro. Ambas simplificam demais uma relação bilateral complexa, atravessada por interesses econômicos estruturais que transcendem governos.

O tarifaço americano responde menos a declarações pontuais de políticos brasileiros e mais à estratégia protecionista da administração Trump. Brasil é alvo porque exporta. Porque compete. Porque Washington decidiu competir de forma mais agressiva.

A fragmentação como sintoma

Os 42% restantes da pesquisa — que não responsabilizam nem Flávio nem Lula, ou não souberam responder — talvez sejam o dado mais revelador.

Indicam que quase metade da população compreende, ainda que de forma difusa, que a crise escapa ao controle de atores individuais. Ou simplesmente desistiram de atribuir culpa num cenário político onde tudo parece culpa de todos.

Essa fragmentação dificulta a construção de consensos mínimos. Sem acordo sobre diagnóstico, não há tratamento coletivo. Cada tribo política reforça sua narrativa. O país segue dividido sobre o básico: quem nos trouxe até aqui.

Perspectivas de curto prazo

A percepção pública tende a se consolidar nas próximas semanas conforme os impactos econômicos das tarifas se materializarem — ou não.

Se o agronegócio sofrer perdas mensuráveis, Lula enfrentará pressão adicional. Se a crise se dissipar por negociações, ambos reivindicarão crédito.

Flávio Bolsonaro, de sua parte, já sinalizou que manterá o tom crítico ao governo. Sua estratégia política depende da oposição vocal, mesmo em temas de Estado.

Para a análise política Brasil, o episódio reforça um padrão: crises externas são rapidamente internalizadas e convertidas em munição eleitoral. Diplomacia virou campanha. E campanha não tem recesso.