Fazenda trava R$ 151 bi do Plano Safra há três semanas
Três semanas após o lançamento oficial do Plano Safra 2025/2026, R$ 151,4 bilhões em crédito subsidiado continuam fora do alcance dos produtores rurais. O Ministério da Fazenda não publicou a portaria que autoriza o Tesouro Nacional a pagar a equalização de juros.
Sem o documento, bancos e cooperativas não podem ofertar as linhas com subvenção federal — justamente as mais baratas. A janela ideal de plantio avança. O produtor espera.
Anatomia de um travamento burocrático
Do total travado, R$ 141,4 bilhões correspondem às linhas tradicionais de custeio e investimento com equalização. Outros R$ 10 bilhões referem-se ao Move Agricultura, programa novo para financiamento de máquinas e equipamentos que também depende de regulamentação.
Enquanto isso, apenas as linhas com juros livres ou controlados sem equalização estão disponíveis. Essas representam a maior fatia dos R$ 610,3 bilhões anunciados, mas custam mais caro ao bolso do agricultor.
Presidencialismo de coalizão em tensão
O atraso expõe uma fissura clássica da governabilidade brasileira. De um lado, o Ministério da Agricultura — comandado por Carlos Fávaro, do PSD, partido da base aliada — anuncia o plano com pompa. De outro, a Fazenda de Fernando Haddad segura a caneta que libera o dinheiro.
É o presidencialismo de coalizão em operação: ministérios de partidos diferentes, agendas nem sempre alinhadas, координação que falha no operacional. O anúncio político acontece em junho. A execução administrativa emperra em julho.
Produtores rurais, historicamente próximos da oposição, reclamam em associações e sindicatos. A narrativa de ineficiência ganha tração. O governo perde credibilidade justamente junto a um setor que precisa capturar para ampliar sua base.
Precedente perigoso
Não é a primeira vez que a equalização atrasa. Em anos anteriores, portarias saíram com semanas de defasagem. Mas o contexto político de 2025 amplifica o dano.
O agronegócio representa 24% do PIB brasileiro. Qualquer ruído na oferta de crédito se traduz em decisões de plantio adiadas, áreas reduzidas, projeções de safra revistas para baixo. O mercado reage. O dólar sente.
Além disso, o atraso reforça a percepção de um governo que anuncia muito e entrega devagar. Para a oposição, é munição farta. Para a base aliada no Congresso, é constrangimento.
O custo do tempo
Agricultores não plantam no calendário político. Plantam no calendário climático. Cada semana de atraso reduz a margem de manobra. Quem depende do crédito subsidiado para fechar as contas da safra fica diante de três opções ruins: esperar sem garantia de prazo, tomar crédito mais caro, ou reduzir a área plantada.
Cooperativas de crédito, que atendem pequenos e médios produtores, estão de mãos atadas. Os grandes, com acesso a linhas privadas, já migraram para outras fontes. O atraso penaliza desproporcionalmente quem mais precisa.
Silêncio oficial
Até o momento, nem o Ministério da Fazenda nem o Ministério da Agricultura ofereceram explicação pública para a demora. A portaria anterior, do ciclo 2024/2025, foi publicada na segunda quinzena de julho. Estamos na mesma janela, mas sem previsão.
Nos bastidores, técnicos mencionam ajustes no texto e revisões orçamentárias. Nada que justifique três semanas de paralisia, segundo especialistas em política agrícola.
O episódio ilustra um problema estrutural: a fragmentação decisória entre ministérios dificulta a execução ágil de políticas públicas. O presidencialismo de coalizão distribui poder, mas também dilui responsabilidade. Quando algo trava, ninguém assume.
Enquanto isso, o produtor rural olha para o céu, torce pela chuva, e espera pela portaria.