Economia

Crise do Master expõe fragilidade da regulação financeira

Crise do Master expõe fragilidade da regulação financeira
Foto: moneytimes.com.br

A Travessia Securitizadora identificou indícios de que o Banco Master cedeu os mesmos créditos duas vezes. Mesmos ativos. Dois compradores. Um problema que expõe as fragilidades estruturais do sistema financeiro brasileiro.

A disputa envolve créditos originados pelo Credcesta — programa de consignado que virou marca registrada das confusões do Master. Esses créditos foram cedidos ao mercado e deveriam lastear a 8ª emissão de debêntures da Travessia. Mas a B3 confirmou: há "indícios consistentes de cessão em duplicidade".

Liquidação extrajudicial e o rastro de ativos duplicados

O Banco Master entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025. Sob gestão de um liquidante nomeado pelo Banco Central, a instituição tornou-se um campo minado de passivos e ativos contestados. A Travessia precisou acionar simultaneamente a B3, a CERC (Central de Cessões de Crédito) e o próprio BC para tentar resolver a questão.

O caso não é isolado. Reflete um padrão: bancos médios que operam em nichos de alto risco, com supervisão insuficiente, acabam gerando crises sistêmicas quando colapsam.

O que significa cessão em duplicidade

Cessão em duplicidade ocorre quando um credor vende o mesmo direito de recebimento para mais de um comprador. É como vender a mesma casa para duas pessoas diferentes. No mercado financeiro, isso compromete a segurança jurídica de toda a cadeia de securitização.

Investidores que compraram debêntures lastreadas nesses créditos agora enfrentam incerteza. Quem realmente tem direito aos recebíveis? A resposta dependerá de decisões judiciais e administrativas que podem levar anos.

Precedentes preocupantes no sistema financeiro

O episódio remete a crises anteriores envolvendo duplicidade de ativos. Em 2020, casos semelhantes no mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) geraram prejuízos milionários e processos que ainda tramitam.

A diferença agora é o contexto: um banco em liquidação, sob supervisão direta do BC, com ativos que circularam pelo mercado de capitais regulado pela CVM. A complexidade institucional aumenta exponencialmente.

Sistema partidário e regulação: a conexão esquecida

A fragilidade regulatória do mercado financeiro brasileiro tem raízes na fragmentação política. O sistema partidário brasileiro, marcado por coalizões amplas e instáveis, dificulta reformas estruturais na supervisão bancária.

Projetos de fortalecimento da regulação financeira frequentemente esbarram em lobbies setoriais e falta de coordenação legislativa. O resultado: lacunas que permitem operações arriscadas, como a cessão duplicada de créditos, permanecerem sem controle adequado até explodirem em crise.

Desde a redemocratização, nenhum governo conseguiu aprovar uma reforma abrangente da supervisão bancária. O BC ganhou autonomia formal em 2021, mas continua operando com instrumentos limitados para fiscalizar operações complexas de securitização.

Quem paga a conta

Investidores de varejo que compraram debêntures da Travessia confiando nos créditos do Credcesta agora enfrentam risco de calote. Fundos de pensão e gestoras que apostaram na solidez do lastro podem ter que revisar suas carteiras.

A Travessia, por sua vez, precisa defender seus direitos contra outros possíveis compradores dos mesmos créditos. Uma batalha judicial cara e demorada.

O papel das centrais de registro

A CERC foi criada justamente para evitar situações como essa. Teoricamente, toda cessão de crédito deveria ser registrada, impedindo duplicidades. Mas o caso Master sugere que ou o registro não foi feito corretamente, ou houve manipulação deliberada.

A B3 identificou os indícios. Agora começa a fase de apuração. O BC precisará investigar se houve fraude ou apenas incompetência na gestão dos ativos.

Lições para o mercado

Este caso reforça três lições fundamentais:

  • Ativos de bancos em dificuldade exigem diligência redobrada
  • O sistema de registro de cessões ainda tem falhas críticas
  • A liquidação extrajudicial não garante ordem nos passivos

Para investidores, fica o alerta: mesmo em operações aparentemente seguras, lastreadas em recebíveis, o risco de duplicidade existe. A estrutura regulatória brasileira ainda não fecha todos os buracos.

A disputa no caso Credcesta deve se arrastar por meses. Enquanto isso, o mercado observa nervoso. Quantos outros casos similares estão escondidos nos balanços de instituições fragilizadas?