Copa com 64 seleções expõe poder da FIFA sobre economia global
A Copa do Mundo de 2026 ainda não começou. Mas Gianni Infantino já fala em 64 seleções.
O presidente da FIFA admitiu publicamente, em entrevista à televisão suíça, que o torneio pode crescer além dos 48 times já confirmados para a próxima edição. A declaração não é casual. Representa uma estratégia de poder que transcende o esporte.
O Precedente Histórico
Desde 1998, quando a Copa saltou de 24 para 32 seleções, o modelo permaneceu inalterado por duas décadas. A mudança para 48 times em 2026 já representa um aumento de 50% no número de participantes. Agora, Infantino sinaliza outra expansão — desta vez, dobrando o tamanho do torneio original de 32 equipes.
A FIFA opera com autonomia jurisdicional própria. Suas decisões escapam ao controle direto de governos nacionais. O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) funciona como instância máxima, uma estrutura que garante à entidade poder de decisão sobre bilhões de dólares sem supervisão externa equivalente.
A Economia Por Trás da Expansão
Os números explicam o movimento. A Copa de 2022 gerou US$ 7,5 bilhões em receita para a FIFA. Com 48 seleções, projeções apontam para US$ 11 bilhões em 2026. Uma Copa com 64 times poderia ultrapassar US$ 15 bilhões.
Mais jogos significam mais direitos de transmissão. Mais patrocinadores. Mais ingressos vendidos. Mais nações participantes ampliam mercados televisivos em regiões antes negligenciadas.
A lógica é simples: cada país qualificado representa um mercado consumidor ativado. Audiências nacionais disparam quando a seleção local compete. Anunciantes pagam prêmios por esse engajamento.
Poder Contra Tradição
A FIFA enfrenta resistência. Clubes europeus perdem jogadores por períodos mais longos. Calendários já saturados ficam insustentáveis. A qualidade técnica pode cair com a diluição do nível competitivo.
Mas a entidade controla o produto mais valioso do futebol. Confederações nacionais dependem dos repasses financeiros da Copa. Países em desenvolvimento veem na participação uma vitrine política e econômica inestimável.
Essa dependência financeira consolida o poder decisório da FIFA. A estrutura funciona como um sistema judicial próprio, onde a entidade é simultaneamente legislador, executor e juiz das regras do jogo — literal e figuradamente.
A Transformação Estrutural
Uma Copa com 64 seleções muda a geografia do futebol. África e Ásia ganhariam mais vagas. A CONMEBOL manteria influência relativa. A UEFA, historicamente dominante, veria sua proporção de participantes reduzida.
O modelo de distribuição de poder no esporte seria reconfigurado. Nações periféricas ganham voz através da participação. A FIFA fortalece sua base de apoio político global.
Infraestrutura se torna desafio crítico. Sediar 104 jogos (contra 64 do formato atual de 32 times) exige mais estádios, mais cidades, possivelmente mais países co-anfitriões. A Copa de 2026 já será realizada em três nações.
Precedente Jurisdicional
A autonomia da FIFA estabelece precedente problemático. Uma organização privada, sediada na Suíça, determina políticas com impacto econômico de dezenas de bilhões em países soberanos.
Governos concedem isenções fiscais, constroem infraestrutura pública, alteram legislações trabalhistas para atender exigências da entidade. O retorno econômico prometido justifica a subordinação legal temporária.
Essa dinâmica revela como poder econômico gera poder jurisdicional de fato. A FIFA não possui exércitos nem polícia. Mas controla acesso a mercados e receitas que poucos governos ousam desafiar.
O Significado Político
Infantino não comanda apenas uma entidade esportiva. Comanda uma estrutura de poder transnacional com capacidade de mobilizar governos, mercados e populações.
A expansão da Copa não é decisão técnica sobre futebol. É decisão política sobre distribuição de recursos, influência e poder simbólico global.
Cada vaga adicional no torneio representa uma concessão a alguma confederação. Cada confederação representa votos na eleição presidencial da FIFA. A matemática política é transparente.
A questão não é se a Copa chegará a 64 seleções. A questão é quando — e qual será o próximo limite dessa expansão aparentemente sem fim.