Caiado acusa Lula e Flávio de sequestrar o país rejeitado
O Brasil está refém de dois políticos que a maioria rejeita. Essa é a tese que Ronaldo Caiado (PSD) levou para a disputa presidencial de 2026. O ex-governador de Goiás diagnosticou neste domingo (2) uma "Síndrome de Estocolmo" nacional: o país estaria "sequestrado" por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro político do bolsonarismo.
A metáfora não é gratuita. Caiado traduz em imagem o impasse político que define a República desde 2018: duas forças com altos índices de rejeição controlam o debate público, enquanto uma "terceira via" busca espaço entre os reféns eleitorais.
O diagnóstico da polarização como patologia
A comparação com a Síndrome de Estocolmo — fenômeno psicológico em que vítimas desenvolvem empatia pelos sequestradores — pretende explicar por que eleitores seguem divididos entre PT e bolsonarismo, mesmo com ambos acumulando derrotas institucionais e desgaste de imagem.
Lula governa com aprovação mediana e enfrenta resistência crescente no Congresso. Flávio Bolsonaro carrega o espólio político do pai, inelegível até 2030, mas amarga rejeição superior a 50% em todas as pesquisas nacionais desde 2023.
Ainda assim, dominam a cena. A leitura de Caiado sugere que o eleitorado brasileiro permanece capturado por uma lógica binária que o impede de enxergar alternativas.
A estratégia da terceira via em 2026
O discurso do candidato do PSD marca território conhecido. Desde a redemocratização, forças políticas situadas entre esquerda e extrema-direita tentam romper polarizações.
O histórico não favorece. Em 2022, Simone Tebet (MDB) conseguiu apenas 4% dos votos válidos. Ciro Gomes (PDT), com 3%, confirmou a pulverização das candidaturas de centro.
Caiado aposta em outro caminho: não se apresenta como moderado, mas como alternativa aos "rejeitados". A estratégia inverte a equação. Em vez de buscar o centro ideológico, mira os eleitores cansados da polarização — mesmo que não sejam centristas.
Contexto institucional: STF, Congresso e disputa por legitimidade
A fala de Caiado ganha relevo em momento de tensão entre poderes. O Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional protagonizam embates sobre limites constitucionais, emendas parlamentares e controle de gastos públicos.
Lula e Flávio Bolsonaro ocupam lados opostos nessa disputa institucional. O petista apoia o STF em questões como inquéritos contra bolsonaristas. O filho de Bolsonaro lidera a resistência parlamentar às decisões do tribunal.
Essa dinâmica alimenta a polarização que Caiado pretende explorar. Quanto mais PT e bolsonarismo monopolizam o conflito institucional, maior o espaço para discursos que prometem "libertar" o país do sequestro político.
Os números da rejeição
Dados recentes sustentam parte do argumento. Pesquisa Datafolha de janeiro mostrou que 47% dos brasileiros não votariam em Lula "de jeito nenhum". Flávio Bolsonaro registra 52% de rejeição no mesmo levantamento.
São números que abrem brecha eleitoral. Mas também revelam o paradoxo: se há maioria que rejeita ambos, por que seguem dominando?
A resposta está na fragmentação do campo alternativo. Enquanto PT e bolsonarismo concentram votos em torno de lideranças únicas, a "terceira via" divide-se entre meia dúzia de postulantes sem identidade clara.
Precedentes históricos e desafios pela frente
O Brasil já conheceu tentativas de romper dicotomias eleitorais. Collor em 1989 venceu explorando a rejeição ao PT e à direita tradicional. Lula em 2002 moderou discurso para superar a polarização FHC versus radicalismo.
Caiado terá que provar que não é apenas mais um nome na fila de rejeitados aos rejeitados. Precisará construir base parlamentar, atrair eleitores além de Goiás e resistir ao espremimento da polarização.
O diagnóstico da Síndrome de Estocolmo pode estar correto. Resta saber se o médico tem a cura — ou se tornará apenas mais um sintoma da doença política brasileira.