Economia

Brasil entra em ranking mundial de café e mira disputa política

Brasil entra em ranking mundial de café e mira disputa política
Foto: globorural.globo.com

O Brasil acaba de ganhar sua primeira edição do The Best Coffee Shops, ranking internacional presente em 28 países. Mas o que parece apenas uma novidade do mercado gastronômico esconde uma disputa mais profunda: a briga pelo controle narrativo de um setor que movimenta US$ 450 bilhões globalmente e onde o Brasil é líder em volume, mas coadjuvante em valor agregado.

A iniciativa vem do Rio Coffee Nation, festival organizado pela Sonimage, e promete conectar cafeterias brasileiras ao circuito internacional de avaliação. Os estabelecimentos mais bem pontuados disputarão etapas latino-americana e mundial. Produtores nacionais também entrarão em seleção internacional de qualidade do grão.

O que isso significa

Estamos diante de um movimento de soft power comercial. O Brasil produz um terço do café mundial, mas historicamente exporta commodity barata enquanto países sem um pé de café — como Itália e Estados Unidos — capturam o valor da marca e da experiência de consumo.

Rankings internacionais funcionam como certificadoras informais. Eles constroem reputação, atraem investimento estrangeiro e, principalmente, reposicionam a percepção de qualidade. É o mesmo mecanismo que transformou vinhos chilenos e queijos franceses em símbolos nacionais.

Para o Brasil, significa finalmente disputar o mercado premium — onde margens chegam a 300% — em vez de apenas vender saca bruta na bolsa de Nova York.

Contexto político e estrutural

A entrada do ranking acontece em momento estratégico, segundo a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações). Os cafés especiais brasileiros ganham exposição internacional justamente quando o governo debate nova política agrícola e o Ministério da Agricultura tenta reposicionar o país como exportador de tecnologia, não apenas de matéria-prima.

Mas há contradição estrutural. O Brasil investe 0,7% do PIB agrícola em pesquisa — metade da média dos países da OCDE. Em cafés especiais, o investimento público é praticamente inexistente. Quem carrega o setor são produtores individuais e algumas cooperativas regionais, especialmente em Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia.

Enquanto isso, Colômbia e Etiópia — concorrentes diretos — recebem subsídios estatais para certificação, marketing internacional e participação em feiras. A Colômbia criou Juan Valdez, personagem que vale mais de US$ 2 bilhões em valor de marca. O Brasil tem... a Embrapa, excelente em pesquisa, mas invisível no imaginário do consumidor global.

Quem ganha, quem perde

Cafeterias de médio porte em capitais ganham vitrine e possibilidade de internacionalização. Produtores de cafés especiais ganham canal direto com compradores estrangeiros que valorizam rastreabilidade e história.

Perdem os grandes grupos que dominam exportação de commodity — justamente porque rankings premium deslocam poder para a ponta da cadeia: barista e produtor boutique, não trading internacional.

O conflito aqui é clássico: agricultura familiar de alto valor agregado versus agronegócio de escala. São modelos diferentes, públicos diferentes, política pública diferente.

Precedente histórico

Não é a primeira vez que o Brasil tenta se reposicionar no café. Nos anos 1990, o extinto IBC (Instituto Brasileiro do Café) tentou criar selo de qualidade. Fracassou por falta de continuidade política e pressão de exportadores que preferiam volume a valor.

Em 2000, a BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) começou certificações próprias. Avançou, mas continua restrita a nicho — menos de 12% da produção nacional.

A diferença agora é que a iniciativa vem de fora — um ranking internacional com presença consolidada — e de baixo — festival organizado por agência privada, não por governo. Historicamente, movimentos assim têm mais chance de permanência.

O que vem pela frente

Se o ranking pegar, veremos aumento de investimento estrangeiro em cafeterias brasileiras e maior pressão por rastreabilidade na cadeia produtiva. Isso é bom para pequenos produtores organizados e ruim para intermediários que lucram com opacidade.

Também veremos disputa regulatória: quem certifica qualidade? Quem valida o ranking? O Ministério da Agricultura vai criar contrapartida nacional ou deixará padrão internacional ditar as regras do mercado doméstico?

São perguntas políticas disfarçadas de técnica comercial. E a resposta definirá se o Brasil finalmente captura valor no café ou continua apenas produzindo matéria-prima para outros lucrarem.