Economia

Bolsa sobe 0,5% e dólar cai: o que isso revela da coalizão

Bolsa sobe 0,5% e dólar cai: o que isso revela da coalizão
Foto: moneytimes.com.br

O Ibovespa futuro rompeu a barreira dos 175 mil pontos na manhã desta segunda-feira, impulsionado por apetite internacional a risco. Ao mesmo tempo, o dólar recuou para R$ 5,10 — movimento raro quando comparado ao desempenho da moeda americana no exterior.

A pergunta que interessa: o que esse otimismo dos mercados diz sobre a arquitetura política brasileira?

Presidencialismo de coalizão e estabilidade fiscal

Investidores estrangeiros seguem apostando no Brasil porque identificam previsibilidade. E previsibilidade, no sistema político brasileiro, depende da capacidade de o Executivo manter sua base legislativa coesa.

O presidencialismo de coalizão — modelo em que o governo precisa aglutinar diversos partidos para garantir maioria no Congresso — tornou-se testado nos últimos meses. A agenda fiscal avançou. O arcabouço foi aprovado. A reforma tributária passou.

São sinais lidos pelos mercados como confirmação de que o sistema funciona, mesmo sob pressões distributivas e tensões federativas.

O mercado contra o ruído político

Os 175.980 pontos atingidos pelo contrato futuro do Ibovespa representam alta de 0,55% na abertura. O dólar à vista caiu enquanto a moeda subia globalmente contra outras divisas.

Trata-se de descolamento técnico. O Brasil atrai capital porque oferece juros reais elevados e perspectiva de crescimento, mas também porque demonstra capacidade de aprovar reformas estruturais.

Essa capacidade deriva diretamente do funcionamento do presidencialismo de coalizão. Sem maioria parlamentar própria, governos brasileiros negociam votos, cargos, emendas e políticas públicas.

Precedente histórico: Cardoso, Lula e Dilma

O modelo não é novo. Fernando Henrique Cardoso estabilizou a economia articulando PFL, PMDB e outros partidos. Lula expandiu gastos sociais mantendo superávit primário através de amplas coalizões. Dilma Rousseff perdeu sua base — e caiu.

A lição permanece: governabilidade no Brasil exige coalizão funcional. Mercados precificam essa realidade.

Quando a base aliada se fragmenta, a volatilidade aumenta. Quando o governo mantém sua coalizão, como observado nas últimas votações importantes, investidores interpretam como sinal verde.

Tensões externas e resiliência doméstica

A alta da bolsa brasileira ocorre apesar de tensões entre Estados Unidos e Irã. O apetite a risco não elimina incertezas geopolíticas, mas o capital flui para onde identifica retorno ajustado.

Brasil combina três atributos: juros altos, reformas em curso e estabilidade institucional derivada do presidencialismo de coalizão.

O terceiro ponto é frequentemente subestimado por analistas que concentram atenção apenas em política monetária ou fiscal.

O que significa para investidores

A convergência de Ibovespa em alta e dólar em queda sinaliza confiança não apenas em fundamentos macroeconômicos, mas na própria capacidade do sistema político de processar conflitos sem rupturas.

Para quem investe, isso importa mais que discursos. Importa mais que ruídos. Importa porque define se reformas serão votadas, se o teto de gastos será respeitado, se a previsibilidade fiscal permanecerá.

O presidencialismo de coalizão, com todos seus custos e distorções, tem se mostrado capaz de produzir essa previsibilidade.

Contexto de longo prazo

Desde a redemocratização, o Brasil aprovou reformas estruturais apenas quando o governo central manteve controle sobre sua coalizão legislativa. Plano Real, Lei de Responsabilidade Fiscal, programas sociais — todos dependeram de maiorias construídas.

O movimento desta segunda-feira nos mercados não é acidente. Reflete leitura sofisticada sobre como funciona a política brasileira.

Enquanto a coalizão se mantiver, o apetite externo a ativos brasileiros tende a permanecer. Se a base rachar, a volatilidade retorna.

Essa é a equação que investidores decifram nos 175 mil pontos do Ibovespa futuro.