Economia

BNDES libera R$ 96 mi para biodiesel enquanto reforma política trava

BNDES libera R$ 96 mi para biodiesel enquanto reforma política trava
Foto: moneytimes.com.br

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social destravou R$ 96,2 milhões para o Grupo Potencial erguer uma fábrica de biodiesel na Lapa, interior do Paraná. O dinheiro público vai para combustível renovável enquanto Brasília emperra na reforma política brasil que todos prometem e ninguém entrega.

A nova planta industrial pretende ampliar a oferta de biocombustíveis no mercado nacional. O BNDES vendeu a operação como contribuição à transição energética. Mas a decisão expõe uma fratura no establishment: há crédito farto para o setor produtivo e paralisia crônica nas reformas estruturais.

O jogo de prioridades do Estado desenvolvimentista

O financiamento ao Grupo Potencial segue a cartilha clássica do desenvolvimentismo brasileiro. O BNDES escolhe setores estratégicos, direciona capital subsidiado, aposta em campeões nacionais. É uma tradição que atravessa governos de todos os matizes ideológicos desde Getúlio Vargas.

O biodiesel ganhou força regulatória nas últimas duas décadas. A mistura obrigatória ao diesel convencional passou de 2% em 2008 para 14% em 2023. Criou-se um mercado cativo. O Grupo Potencial surfa nessa onda com aval estatal.

Mas o modelo desenvolvimentista carrega uma contradição estrutural: moderniza a economia sem modernizar a política. Investe em usinas e deixa o Congresso funcionando com regras dos anos 1990. O resultado é um país que produz biodiesel de ponta e elege deputados pelo sistema proporcional de lista aberta, o mais fragmentador do planeta.

Reforma política: a promessa que envelhece

Desde a redemocratização, todas as legislaturas prometeram reforma política. Nenhuma entregou mudança substantiva. O sistema eleitoral brasileiro permanece intacto em seus vícios: pulverização partidária, financiamento opaco, reeleição sem limites, coligações que escondem ideologia.

A reforma política brasil virou jargão vazio. Deputados falam nela em palanque e a enterram no plenário. A razão é simples: quem tem poder para mudar o jogo foi eleito pelas regras atuais. Não há incentivo para reformar.

Enquanto isso, o BNDES segue alocando bilhões. Só em 2024, o banco aprovou mais de R$ 150 bilhões em operações. Infraestrutura, energia, indústria — tudo recebe financiamento. A máquina estatal funciona a pleno vapor para o setor produtivo e em ponto morto para a arquitetura institucional.

Paraná na rota do biodiesel

A escolha da Lapa não é acidental. O Paraná concentra parte significativa da produção nacional de soja e milho, matérias-primas do biodiesel. A logística favorece: proximidade com o polo consumidor de São Paulo e acesso a corredores de exportação.

O Grupo Potencial aposta na demanda crescente. O governo federal sinalizou aumento da mistura obrigatória para 15% até 2025. Cada ponto percentual representa milhões de litros a mais no mercado. É garantia de retorno com risco mínimo — especialmente quando o BNDES entra com taxa subsidiada.

Para o banco estatal, a operação cumpre o roteiro oficial: transição energética, geração de empregos, desenvolvimento regional. Para o grupo empresarial, é negócio com demanda garantida por lei e crédito barato. Todos ganham, exceto o contribuinte que subsidia a festa sem saber o preço da conta.

O que fica de fora

Enquanto R$ 96 milhões voam para o Paraná, a reforma política brasil segue na geladeira. Não há BNDES para financiar mudança institucional. Não há taxa subsidiada para aprovar cláusula de barreira real ou fim do fundo partidário bilionário.

O establishment prefere assim. Modernização setorial sem transformação sistêmica. Indústria 4.0 com política 1.0. O biodiesel avança, o Congresso empaca. E o ciclo se repete: próximo governo, próxima promessa, próxima frustração.

O financiamento ao Grupo Potencial é legítimo dentro da lógica desenvolvimentista. Mas expõe uma escolha: o Brasil investe pesado onde dá lucro privado e adia sine die o que exigiria coragem republicana. A conta dessa esquizofrenia institucional chega todo dia — em forma de escândalo, paralisia legislativa e descrença cidadã.