Economia

Big Techs escondem US$ 1,65 tri em dívidas fora dos balanços

Big Techs escondem US$ 1,65 tri em dívidas fora dos balanços
Foto: valor.globo.com

As cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos acumulam US$ 1,65 trilhão em obrigações financeiras que não aparecem diretamente em seus balanços patrimoniais. O montante representa oito vezes o valor registrado há apenas quatro anos.

A explosão dessa dívida "invisível" coincide com a corrida bilionária pela inteligência artificial. E já supera o endividamento formal dessas mesmas companhias.

Levantamento do Nikkei Asia analisou documentos recentes da Alphabet (Google), Microsoft, Amazon, Meta e Oracle. Os números revelam uma transformação silenciosa na estrutura de capital do setor mais poderoso da economia global.

O que são essas dívidas ocultas

Diferentemente dos empréstimos tradicionais que aparecem no passivo dos balanços, essas obrigações ficam registradas em notas explicativas e documentos acessórios. Incluem compromissos de longo prazo como:

  • Contratos de arrendamento de data centers
  • Acordos de compra de energia para infraestrutura de IA
  • Obrigações com fornecedores de chips e semicondutores
  • Compromissos de investimento em startups e pesquisa

A contabilidade permite essa classificação em zona cinzenta. Tecnicamente legal. Praticamente opaca.

Por que isso importa agora

A divulgação dos resultados do segundo trimestre, prevista para esta semana, deve elevar ainda mais esses números. A Microsoft sozinha comprometeu-se com mais de US$ 80 bilhões em investimentos em infraestrutura de IA para 2025.

O problema transcende a contabilidade criativa. Essas obrigações representam riscos reais que investidores não conseguem avaliar adequadamente. Se a corrida da IA desacelerar ou não gerar os retornos esperados, essas empresas enfrentarão compromissos bilionários sem a flexibilidade financeira que seus balanços aparentemente indicam.

Para reguladores, o desafio é ainda maior. Como supervisionar riscos sistêmicos que não aparecem nos indicadores tradicionais?

O paralelo histórico que preocupa

A situação evoca memórias incômodas. Antes da crise de 2008, instituições financeiras mantinham bilhões em obrigações fora do balanço através de veículos de propósito específico. Quando o mercado virou, essas dívidas "invisíveis" materializaram-se simultaneamente.

A diferença agora está no setor. Não são mais bancos, mas as empresas que dominam comunicação, comércio, busca e redes sociais globais. Companhias com poder de mercado incomparável e influência política crescente.

A concentração de risco é extraordinária. Cinco empresas controlam a infraestrutura digital do planeta e simultaneamente acumulam obrigações equivalentes ao PIB de países como Espanha ou Canadá.

Quem perde com a opacidade

Investidores institucionais começam a questionar a sustentabilidade desse modelo. Fundos de pensão e gestoras detêm trilhões em ações dessas companhias, mas carecem de ferramentas para avaliar exposição real.

A assimetria informacional beneficia exclusivamente os executivos das Big Techs. Eles conhecem os compromissos futuros. O mercado, não.

Para autoridades regulatórias, a situação representa um desafio inédito. A SEC (equivalente à CVM americana) exige divulgação dessas obrigações, mas em formatos que dificultam análise consolidada. Cada empresa utiliza critérios próprios de classificação.

O silêncio estratégico

Nenhuma das cinco empresas comentou publicamente o levantamento do Nikkei. O silêncio não surpreende. Reconhecer a magnitude dessas obrigações poderia desencadear revisões de rating e aumentar o custo de capital.

A estratégia é clara: manter os compromissos tecnicamente divulgados, mas praticamente invisíveis. Cumprir a letra da lei enquanto se evita seu espírito.

Precedente perigoso

A normalização desse nível de endividamento oculto estabelece precedente preocupante. Se as maiores e mais lucrativas empresas do mundo podem manter US$ 1,65 trilhão fora da vista, que limites restam?

A questão transcende finanças corporativas. Toca governança, transparência e o próprio funcionamento dos mercados de capitais. Quando obrigações dessa magnitude tornam-se rotina contábil, algo fundamental se perdeu.

Os próximos balanços dirão se essa é a nova normalidade ou o prelúdio de uma correção necessária. Investidores e reguladores observam. Mas com ferramentas do século passado para riscos do presente.