Bebê dado como morto sobrevive: falha expõe crise do SUS
Regina Célia Paschoal abriu o saco plástico e ouviu um barulho. O bebê Noah Gabriel se mexia. Respirava. Estava vivo — quatro horas depois de a Santa Casa de Rio Claro, no interior paulista, ter atestado sua morte.
O episódio não é apenas um erro médico isolado. É sintoma de uma crise sistêmica que atravessa décadas de subfinanciamento, precarização e ausência de coordenação política na saúde pública brasileira.
O que aconteceu em Rio Claro
Noah Gabriel sofreu parada cardiorrespiratória. A equipe médica tentou reanimação. Declarou óbito. Fechou o corpo em saco mortuário com fitas adesivas.
Regina, agente funerária com anos de experiência, percebeu movimento. "O neném começou a se mexer mais ainda, fazia um barulho, que ele queria respirar", relatou à EPTV.
A Santa Casa afirmou que "todos os protocolos técnicos e legais para constatação do óbito foram rigorosamente cumpridos". A declaração expõe o nó: se os protocolos foram seguidos e ainda assim houve falha, o problema está nos próprios protocolos — ou na capacidade de executá-los.
A anatomia de um colapso
O caso de Noah não surge no vazio. Integra uma sequência de falhas que revelam o esgotamento do modelo de gestão hospitalar no país.
Hospitais filantrópicos como as Santas Casas operam com déficits crônicos. Dependem de repasses governamentais que não acompanham a inflação médica. Enfrentam escassez de equipamentos, insumos e pessoal qualificado.
O resultado: profissionais sobrecarregados, protocolos aplicados às pressas, margem de erro ampliada.
O precedente político
Casos como este costumam gerar comoção nacional por 48 horas. Depois, somem do debate público. Não há responsabilização estrutural.
O presidencialismo de coalizão brasileiro pulveriza responsabilidades. A saúde passa por três esferas de governo — federal, estadual, municipal. Cada uma aponta para a outra quando ocorre uma tragédia evitável.
No Congresso, a saúde é moeda de troca. Verbas são distribuídas segundo critérios políticos, não epidemiológicos. Reformas estruturais esbarram em interesses corporativos e eleitorais.
O Ministério da Saúde muda de comando a cada crise ou rearranjo de coalizão. Não há continuidade administrativa. Programas começam e são abandonados.
Quem paga a conta
Noah sobreviveu porque Regina Célia tinha experiência suficiente para desconfiar. Mas quantos não tiveram a mesma sorte?
O Conselho Federal de Medicina não mantém registro nacional unificado de erros médicos evitáveis. Não há transparência sistemática. Não há aprendizado institucional.
A família de Noah enfrentará agora outra batalha: a judicialização. Processos na Justiça são a única via de responsabilização individual — mas não corrigem falhas sistêmicas.
O que isso significa
Este caso é um espelho. Reflete a incapacidade do Estado brasileiro de garantir o básico: diagnóstico correto de morte.
Se protocolos hospitalares falham em distinção tão elementar, o que dizer de tratamentos complexos, cirurgias de risco, UTIs neonatais?
A crise da saúde não será resolvida com comoção episódica. Exige reforma no financiamento, na gestão, na formação profissional e — sobretudo — na arquitetura política que transforma vidas em variáveis de negociação partidária.
Noah Gabriel respirou dentro de um saco de cadáver. Seu caso deveria tirar o fôlego de quem governa.