Economia

Aviação brasileira atinge 65 mi de passageiros e expõe gargalo

Aviação brasileira atinge 65 mi de passageiros e expõe gargalo
Foto: agenciainfra.com

Sessenta e cinco vírgula dois milhões de passageiros cruzaram os céus brasileiros no primeiro semestre de 2026. Um crescimento de 5,4% sobre o ano anterior. Números que a ANAC divulgou segunda-feira e que escondem uma bomba-relógio política.

A expansão do transporte aéreo brasileiro não acontece no vácuo. Ela ocorre enquanto a infraestrutura aeroportuária nacional permanece estrangulada — herança de décadas de subinvestimento que agora coloca Executivo e Legislativo em lados opostos sobre como financiar a modernização necessária.

O Crescimento e Seus Limites

Dos 65,2 milhões de passageiros, 50,2 milhões voaram em rotas domésticas. Outros 15 milhões em voos internacionais. A proporção revela um país que voa mais para dentro do que para fora — padrão histórico de economias continentais em desenvolvimento.

O crescimento de 5,4% supera a expansão do PIB projetada para o período. Significa que a classe média brasileira continua convertendo renda em mobilidade aérea. Mas também significa pressão crescente sobre aeroportos já saturados.

Congonhas, Santos Dumont, Pampulha. Terminais que operam no limite da capacidade há anos. A concessão de aeroportos à iniciativa privada desde 2011 aliviou parte do problema. Não o resolveu.

A Equação Política

O debate sobre aviação no Brasil sempre foi debate sobre federalismo fiscal. Quem paga a conta da infraestrutura que permite ao setor crescer? União, estados ou concessionárias privadas?

O Congresso Nacional pressiona por maior participação estatal em aeroportos regionais — aqueles que não interessam à iniciativa privada mas são vitais para integração territorial. O governo resiste, alegando restrição orçamentária e compromissos fiscais.

É o velho embate entre desenvolvimentismo e austeridade, desta vez com altitude de cruzeiro.

A ANAC, agência reguladora criada em 2005, navega esse campo minado. Tecnicamente independente, politicamente vulnerável. Suas decisões sobre outorgas e tarifas afetam diretamente o bolso de milhões — logo, afetam eleições.

Precedente Histórico

A aviação comercial brasileira nasceu estatal com o Correio Aéreo Nacional em 1931. Privatizou-se gradualmente após 1990. A Varig quebrou em 2006. A GOL e a Azul dividiram o mercado com a TAM, depois absorvida pela LATAM.

Cada ciclo de expansão do setor foi seguido por crise. A atual onda de crescimento ocorre sob ameaça de recessão global e volatilidade cambial — fatores que encarecem combustível e aeronaves importadas.

Historicamente, quando a aviação cresce e a infraestrutura não acompanha, o gargalo produz três efeitos: atrasos em cascata, redução da satisfação do passageiro e pressão inflacionária sobre tarifas.

Os três já são visíveis em 2026.

O Que Está em Jogo

Para o governo, os números da ANAC servem como evidência de que o modelo de concessões funciona. Para a oposição no Congresso, provam justamente o contrário — que o mercado sozinho não resolve assimetrias regionais.

A discussão não é apenas técnica. É ideológica. Toca no nervo exposto da relação entre Estado e mercado no Brasil contemporâneo.

O STF já foi chamado a arbitrar disputas sobre competências regulatórias na aviação. Pode ser chamado novamente se o impasse entre Executivo e Legislativo sobre investimentos aeroportuários escalar.

Sessenta e cinco milhões de passageiros não são apenas estatística. São eleitores que esperam pontualidade, segurança e preços razoáveis. São também pressão política mensurável sobre quem governa.

A aviação brasileira voa mais alto. A questão é saber se a política consegue acompanhar a decolagem.