Economia

Assaí e Mercado Livre redesenham poder no varejo brasileiro

Assaí e Mercado Livre redesenham poder no varejo brasileiro
Foto: exame.com

Uma prateleira de paracetamol ao lado de sacos de arroz. O analgésico compartilha corredor com detergente e feijão. O Assaí Farma chegou, e com ele uma pergunta incômoda para as grandes redes: quem controla o acesso ao consumidor brasileiro?

A disputa por território

O movimento do Assaí Atacadista não é varejista. É territorial. Ao integrar farmácia dentro de suas lojas de atacarejo, a rede do Grupo Pão de Açúcar ataca o modelo de negócio que sustentou Raia Drogasil e Pague Menos por décadas: a farmácia de esquina como destino único.

A entrada simultânea do Mercado Livre no setor farmacêutico completa o cerco. De um lado, o atacarejo oferece volume e conveniência física. De outro, o e-commerce promete entrega rápida e comparação de preços instantânea.

As redes tradicionais estão espremidas entre dois modelos de distribuição mais eficientes.

Precedente histórico: quando o supermercado matou o armazém

Este conflito tem ancestral conhecido. Nos anos 1970 e 1980, supermercados varreram armazéns de bairro do mapa urbano brasileiro. A lógica era idêntica: concentrar múltiplas necessidades sob um mesmo teto.

O consumidor escolheu conveniência sobre proximidade afetiva. Escolheu preço sobre atendimento personalizado.

Agora a farmácia tradicional enfrenta a mesma ameaça. O brasileiro médio já vai ao Assaí mensalmente. Por que fazer uma viagem separada para comprar remédio?

A matemática da capilaridade

O Assaí opera 300 lojas no Brasil. Parece pouco comparado às mais de 2.800 unidades da Raia Drogasil. Mas cada loja do Assaí funciona como hub regional, atraindo consumidores num raio de quilômetros.

A estratégia não é estar em toda esquina. É estar no caminho que o consumidor já faz.

O Mercado Livre opera lógica inversa: capilaridade digital. Não precisa de loja física. Precisa de logística eficiente e base de usuários fidelizados. Tem ambos.

O que está realmente em jogo

Medicamentos representam apenas o primeiro front desta guerra. O que está em disputa é o controle sobre a rotina de compra das famílias brasileiras.

Quem captura a compra mensal de alimentos captura também a compra de higiene. Quem captura higiene captura cosméticos. Quem captura cosméticos está a um passo de capturar medicamentos de venda livre.

É guerra de ecossistema, não de produto.

Farmácias tradicionais: a resposta possível

As grandes redes não estão inertes. Investem em três frentes simultâneas:

  • Programas de fidelidade mais agressivos, com descontos escalonados
  • Expansão de serviços de saúde dentro das lojas (vacinação, testes rápidos, consultórios)
  • Parcerias com aplicativos de entrega para competir em velocidade

A estratégia é clara: transformar farmácia em centro de saúde primária. Se não podem vencer em preço e conveniência, vencem em especialização.

A variável regulatória

Há um elemento imprevisível nesta disputa: a Anvisa. A agência reguladora mantém controles rígidos sobre venda de medicamentos, exigindo presença de farmacêutico responsável.

Qualquer mudança regulatória que facilite venda online de medicamentos controlados favorece o Mercado Livre. Qualquer endurecimento protege o modelo tradicional.

A política regulatória, não apenas a estratégia empresarial, decidirá este embate.

O consumidor como árbitro final

Precedentes históricos sugerem que conveniência e preço vencem especialização e proximidade. Mas o setor farmacêutico tem peculiaridade: medicamentos não são commodities puras.

Há urgência, há prescrição médica, há necessidade de orientação. Variáveis que não existiam quando supermercados substituíram armazéns.

Se o consumidor brasileiro valorizar esses elementos, as redes tradicionais sobrevivem transformadas. Se valorizar apenas preço e praticidade, o modelo de esquina morre.

A resposta virá não de analistas, mas de milhões de decisões individuais nos próximos 24 meses. O varejo farmacêutico brasileiro está sendo redesenhado agora, uma compra por vez.