Economia

Alckmin usa números da indústria para blindar coalizão de Lula

Alckmin usa números da indústria para blindar coalizão de Lula
Foto: moneytimes.com.br

O vice-presidente Geraldo Alckmin divulgou neste domingo (2) um comparativo numérico que funciona como peça de artilharia política: a indústria brasileira encolheu 1,6% entre 2015 e 2022, mas cresceu 3,2% de 2023 a 2025, sob Lula.

O recado não é econômico. É político.

Alckmin ocupa a vice-presidência como resultado direto do presidencialismo de coalizão brasileiro — sistema em que partidos ideologicamente distantes se unem para viabilizar governabilidade. Ele, ex-tucano e adversário histórico do PT, hoje empresta credibilidade ao governo petista junto ao empresariado e ao centro político.

O que os números escondem

A comparação traçada por Alckmin abrange três governos: Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL). O período de 2015 a 2022 inclui a recessão de 2015-2016, a crise política que resultou no impeachment, a pandemia de Covid-19 e seus efeitos econômicos prolongados.

Já o intervalo 2023-2025 cobre apenas dois anos completos de gestão Lula 3, em cenário de recuperação pós-pandêmica global e com políticas industriais reativadas — caso da nova indústria Brasil e dos incentivos setoriais.

Alckmin listou fechamentos emblemáticos: Ford, Mercedes-Benz, Vibra, Sony, Troller e Audi. São marcas que simbolizam desindustrialização, tema central no debate sobre o futuro econômico brasileiro.

Por que Alckmin fala agora

A declaração ocorre em momento de tensão interna na coalizão governista. Partidos aliados pressionam por cargos, emendas e protagonismo. O Centrão, bloco essencial para aprovar pautas no Congresso, ameaça migrar para a oposição em 2026.

Ao destacar resultados econômicos positivos, Alckmin cumpre dupla função: justifica sua presença no governo e oferece munição retórica para aliados defenderem a gestão em suas bases eleitorais.

O vice comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — pasta recriada por Lula em 2023 justamente para sinalizar prioridade à reindustrialização. Os números apresentados por Alckmin são, portanto, também uma prestação de contas pessoal.

Coalizão como arquitetura de poder

O presidencialismo de coalizão brasileiro exige que o Executivo monte maiorias parlamentares mediante distribuição de ministérios, cargos e recursos orçamentários. Não há maioria automática, como em sistemas parlamentaristas.

Lula governa com 11 partidos na base aliada, que somam cerca de 320 deputados e 55 senadores. Mas essa maioria é instável. Exige negociação permanente.

Alckmin personifica esse arranjo: político de centro-direita que legitima um governo de esquerda perante setores desconfiados. Sua fala sobre a indústria busca consolidar essa ponte.

Precedente histórico

A estratégia de usar dados econômicos para fortalecer coalizões não é nova. Fernando Henrique Cardoso fez isso com a estabilização monetária nos anos 1990. Lula repetiu em seu primeiro mandato (2003-2006) ao combinar crescimento com distribuição de renda.

O que diferencia o momento atual é o contexto de polarização extrema. Qualquer número vira arma discursiva. A oposição já questiona a metodologia, o recorte temporal e a comparação.

Mas para a base governista, os dados servem como escudo contra críticas de que o PT seria anti-industrial ou que apenas governos liberais geram crescimento.

Para quem Alckmin fala

O público-alvo imediato são empresários da Fiesp e entidades setoriais que historicamente desconfiam do PT. Alckmin busca convencê-los de que há pragmatismo econômico suficiente para justificar apoio — ou ao menos neutralidade — em 2026.

O público secundário é o próprio Centrão. Números positivos facilitam que esses partidos justifiquem sua permanência na base sem serem acusados de oportunismo puro por seus eleitores.

Por fim, há o eleitor de centro indeciso, que Lula precisa conquistar para viabilizar reeleição ou transferir capital político a um sucessor.

A declaração de Alckmin é, assim, menos sobre economia e mais sobre engenharia política: manter de pé uma coalizão heterogênea em país fragmentado.