Alckmin anuncia R$ 10 bi com Europa enquanto Trump aplica tarifaço
R$ 10 bilhões em dois meses. É o que o Brasil já faturou a mais com a Europa desde que o acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor. O anúncio de Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, vem dias depois de Donald Trump impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
O timing não é coincidência. É estratégia.
O que está em jogo
As exportações brasileiras para a Europa cresceram 26% em relação ao mesmo período de 2025. O número representa uma virada geopolítica que a coalizão presidencial vem desenhando desde que ficou claro que Washington entraria em modo protecionista.
Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal destino não-commodity do Brasil. Agora, Bruxelas surge como alternativa viável — e lucrativa.
Alckmin não escondeu o recado: "O acordo com a União Europeia já mostra resultados concretos no momento em que mais precisamos diversificar nossos mercados."
A engenharia política por trás dos números
O acordo Mercosul-UE levou 25 anos para ser fechado. Passou por governos de direita, esquerda e centro. Foi quase enterrado na gestão Bolsonaro por questões ambientais. Lula o resgatou, renegociou termos climáticos e conseguiu ratificação europeia em tempo recorde.
A coalizão presidencial apostou nessa carta mesmo enfrentando resistências internas. Ruralistas temiam exigências ambientais. Industriais, a concorrência europeia. Mas o cálculo era outro: criar uma válvula de escape antes que Trump voltasse.
E Trump voltou.
O tarifaço e suas consequências
A nova tarifa americana de 25% atinge principalmente aço, alumínio e produtos manufaturados brasileiros. São setores que empregam milhões e concentram-se em estados politicamente sensíveis: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul.
A conta é simples: cada ponto percentual de tarifa reduz competitividade brasileira e transfere empregos para dentro dos EUA ou para países sem tarifa.
O acordo com a UE funciona na direção oposta. Reduz tarifas europeias sobre produtos brasileiros, tornando-os mais competitivos num mercado de 450 milhões de consumidores com alto poder aquisitivo.
Precedente histórico
Não é a primeira vez que o Brasil precisa reorientar seu comércio exterior por pressão americana. Nos anos 1970, o choque do petróleo e a crise com Washington levaram o regime militar a buscar mercados no Oriente Médio e África.
A diferença agora é a escala e a velocidade. A integração comercial global permite que R$ 10 bilhões mudem de rota em oito semanas. Antes, levaria anos.
Para a coalizão presidencial, o número de Alckmin serve a múltiplos propósitos: mostra resiliência econômica, justifica a aposta europeia e sinaliza ao mercado que há plano B para o tarifaço de Trump.
Os números por dentro
- R$ 10 bilhões em aumento de exportações em dois meses
- 26% de crescimento comparado ao mesmo período de 2025
- 450 milhões de consumidores europeus agora com acesso facilitado a produtos brasileiros
- 25% de tarifa americana sobre produtos selecionados brasileiros
O que vem pela frente
A questão agora é se o crescimento europeu compensa as perdas americanas. Economistas divergem. Alguns apontam que a UE consome mais commodities agrícolas que manufaturados — exatamente o contrário do que o Brasil precisa para industrializar.
Outros argumentam que é cedo para avaliar. O acordo tem apenas dois meses. Cadeias produtivas levam tempo para se reorganizar.
Politicamente, porém, Alckmin já venceu. Conseguiu um dado concreto, positivo e tempestivo para enfrentar a narrativa de isolamento econômico que a oposição tenta construir.
A coalizão presidencial aposta que, até 2026, os números europeus estarão robustos o suficiente para neutralizar o discurso de dependência americana. É uma aposta de longo prazo num jogo de curto prazo.
Por enquanto, são R$ 10 bilhões que falam mais alto que qualquer tarifaço.