Alckmin celebra acordo Europa enquanto sistema partidário treme
Geraldo Alckmin subiu ao palanque com números na mão: R$ 10 bilhões a mais em exportações para a Europa em apenas dois meses. Um crescimento de 26% no comércio com o bloco europeu, fruto do acordo Mercosul-União Europeia que finalmente saiu do papel depois de duas décadas de negociação.
O timing do anúncio não foi acidental. Enquanto Donald Trump impõe tarifas bilionárias contra produtos brasileiros — o chamado "tarifaço" que ameaça setores inteiros da economia nacional — o vice-presidente do Brasil precisa mostrar que o governo tem saídas. E que a diplomacia comercial funciona.
O jogo das compensações comerciais
A celebração de Alckmin esconde uma realidade mais complexa. O acordo com a Europa representa, na prática, uma diversificação forçada de mercados. O Brasil não está conquistando novos horizontes por estratégia — está buscando sobrevivência diante do protecionismo americano.
Os R$ 10 bilhões adicionais nas exportações para o bloco europeu mal arranham os US$ 300 bilhões anuais que o país negocia com os Estados Unidos. É uma almofada. Não uma solução.
Mas no sistema partidário brasileiro, onde a narrativa vale tanto quanto o resultado, Alckmin cumpre seu papel. O vice sempre foi o fiador da ala moderada, o interlocutor com o empresariado, o rosto palatável do governo Lula para quem torce o nariz para o PT.
A fratura exposta do arranjo político
O que o anúncio revela com clareza cirúrgica é a divisão de trabalho na coalizão governista. Lula cuida da base social e da retórica anti-imperialista. Alckmin vende o Brasil lá fora e acalma mercados aqui dentro.
Esse arranjo — típico do presidencialismo de coalizão brasileiro — funciona enquanto há recursos para distribuir e crises para administrar em separado. O problema surge quando as crises se sobrepõem.
E elas estão se sobrepondo agora.
O tarifaço de Trump não é apenas um problema econômico. É um problema político que expõe as contradições do sistema partidário brasileiro: como manter uma coalizão ampla quando metade dela quer confronto retórico com Washington e a outra metade precisa de pragmatismo comercial?
Europa como tábua de salvação limitada
O acordo Mercosul-UE levou 24 anos para ser concluído. Não por acaso. O bloco europeu impõe barreiras sanitárias, ambientais e trabalhistas que desafiam o modelo exportador brasileiro, baseado em commodities e na flexibilização regulatória.
Os R$ 10 bilhões adicionais vêm principalmente de:
- Proteína animal (frango, carne bovina, suína)
- Soja e derivados
- Celulose
- Minério de ferro
Ou seja, a mesma pauta de sempre. O Brasil continua vendendo produtos primários, com baixo valor agregado, para mercados cada vez mais exigentes em contrapartidas ambientais.
A Europa compra mais, mas cobra mais. E essa conta chegará em forma de novas condicionalidades — tema que divide ainda mais o sistema partidário brasileiro entre desenvolvimentistas e ambientalistas.
O precedente que importa
O que está em jogo aqui não são apenas R$ 10 bilhões. É a capacidade do sistema político brasileiro de produzir consensos mínimos diante de choques externos.
Historicamente, o Brasil navegou crises internacionais mantendo canais abertos com todos os lados. Foi assim na Guerra Fria, foi assim nos conflitos comerciais dos anos 1990 e 2000.
Mas o sistema partidário atual — fragmentado, polarizado, refém de minorias barulhentas nas redes sociais — não tem mais a elasticidade de antigamente.
Alckmin representa a tentativa de preservar essa tradição pragmática. Mas é uma voz cada vez mais isolada num ecossistema político que premia a radicalização.
Para quem isso importa
Para o empresariado exportador, o recado é claro: há vida além dos Estados Unidos, mas ela é mais cara e mais complicada.
Para o sistema partidário, o alerta é outro: a coalizão governista só se sustenta enquanto conseguir administrar contradições. Quando elas explodem simultaneamente — como agora — o arranjo treme.
E para Alckmin, o desafio é pessoal: manter-se relevante num governo onde o centro político encolhe a cada semana.
Os R$ 10 bilhões são reais. A celebração é legítima. Mas o contexto é sombrio. E contexto, em política, costuma valer mais que números.