Economia

10 milhões na informalidade: a bomba social que ninguém quer desarmar

10 milhões na informalidade: a bomba social que ninguém quer desarmar
Foto: valor.globo.com

Dez milhões de brasileiros vivem na camada mais frágil do trabalho informal. Sem carteira assinada, sem direitos, sem proteção. É um contingente maior que a população de Portugal jogado na própria sorte.

O número, revelado por levantamento do Valor Econômico, expõe uma ferida crônica que nenhuma força política quer enfrentar de verdade. Nem o Executivo, nem o Congresso, nem o Judiciário.

A anatomia da precariedade

Esse "núcleo duro" da informalidade não é composto por microempreendedores digitais ou autônomos qualificados. São trabalhadores sem qualquer vínculo estável, flutuando entre bicos, subempregos e a completa ausência de renda.

A informalidade total no Brasil ultrapassa 38 milhões de pessoas. Mas esses 10 milhões representam o segmento de maior vulnerabilidade: sem contribuição previdenciária, sem acesso a crédito formal, sem perspectiva de mobilidade social.

É a precarização em estado puro.

O impasse institucional

Enquanto STF e Congresso travam batalhas diárias sobre ritos, emendas e interpretações constitucionais, essa massa de trabalhadores permanece invisível ao radar institucional.

O Supremo julga questões bilionárias sobre desoneração da folha de pagamento. O Congresso debate reformas tributárias de alta complexidade. Mas nenhuma dessas instâncias está endereçando a fratura social que esses 10 milhões representam.

Há aqui um paradoxo político perverso: quanto mais sofisticado o debate institucional, mais distante ele fica da realidade de quem sobrevive na informalidade extrema.

Precedente histórico

O Brasil já conheceu esse filme. A informalidade massiva dos anos 1980 e 1990 gerou uma geração inteira sem acesso a direitos trabalhistas. A Constituição de 1988 prometeu proteção social universal. Décadas depois, o fosso persiste.

A diferença é que hoje há um componente novo: a desindustrialização acelerada reduziu postos formais sem que houvesse substituição equivalente. O setor de serviços absorveu parte dessa mão de obra, mas em condições precárias.

E a chamada "economia de plataforma" — aplicativos de entrega, transporte — apenas camuflou o problema, criando uma nova camada de informalidade travestida de empreendedorismo.

Quem paga a conta

Esses 10 milhões não contribuem para a Previdência. Quando envelhecerem, cairão na assistência social. O custo fiscal virá, inevitavelmente. A diferença é que será pago por toda a sociedade, não apenas pelos empregadores que deveriam ter formalizado essas relações.

É uma bomba-relógio fiscal e social. E o relógio está correndo.

Enquanto isso, o debate público permanece fixado em temas que mobilizam bases ideológicas mas não endereçam essa fratura estrutural. Direita e esquerda disputam narrativas. Os 10 milhões permanecem no mesmo lugar.

O que falta

Falta vontade política para enfrentar o custo de curto prazo da formalização. Falta coordenação entre os poderes para construir uma política de Estado que atravesse mandatos. Falta reconhecimento de que o problema não será resolvido por crescimento econômico isolado.

O mercado de trabalho brasileiro está segmentado de forma estrutural. Uma parcela desfruta de estabilidade, direitos e proteção. Outra amarga a precariedade crônica. E a distância entre esses mundos só aumenta.

Há saídas possíveis: reformas que reduzam o custo da formalização, políticas ativas de emprego, qualificação profissional em escala. Mas todas exigem investimento público, coordenação institucional e horizonte de longo prazo.

Três coisas que faltam ao Brasil contemporâneo.

O silêncio eloquente

O mais revelador não é a existência desses 10 milhões na informalidade extrema. É o silêncio sobre eles no debate institucional de alto nível.

Enquanto STF e Congresso medem forças em disputa pelo protagonismo político, essa massa de trabalhadores segue sem voz, sem representação efetiva, sem lugar na agenda das instituições que, em tese, deveriam zelar por seus direitos.

É um termômetro preciso da desconexão entre as elites políticas — de todos os espectros — e a realidade social que deveriam governar.

Dez milhões de pessoas. Uma bomba-relógio social. E ninguém querendo segurar o pavio.