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Trump e Infantino: diplomacia paralela no futebol preocupa

Trump e Infantino: diplomacia paralela no futebol preocupa
Foto: exame.com

Donald Trump voltou a borrar as linhas entre Estado e espetáculo. Desta vez, transformou a Copa do Mundo em troféu pessoal.

O ex-presidente republicano declarou publicamente que o Mundial nos Estados Unidos atingiu "um nível que ninguém achava possível". Mais significativo: elogiou nominalmente Gianni Infantino, presidente da FIFA, chamando-o de "fantástico".

A cena importa menos pelo futebol. Importa pela arquitetura de poder que revela.

Diplomacia paralela e poder executivo

Quando um líder político celebra publicamente um dirigente esportivo internacional, não está apenas fazendo protocolo. Está sinalizando canais de influência que operam fora das estruturas tradicionais do poder judiciário e legislativo.

Infantino comanda uma organização com receita anual superior a US$ 7 bilhões. A FIFA mantém relações diplomáticas com 211 associações nacionais — mais que os 193 membros da ONU. Seu presidente circula entre chefes de Estado com desenvoltura equivalente à de secretários-gerais de organismos multilaterais.

Trump sabe disso. Seus elogios não são gratuitos.

Precedente histórico e análise institucional

A história política americana registra momentos em que o poder executivo utilizou eventos esportivos como extensão da diplomacia formal. Nixon e o pingue-pongue chinês em 1971. Reagan e os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984.

A diferença reside no contexto institucional.

Aqueles eram presidentes no exercício do mandato, operando dentro de estruturas de poder judiciário e executivo estabelecidas. Trump fala como candidato à reeleição — tecnicamente, um civil. Mas age com a gestualidade de quem já ocupa o cargo.

Essa ambiguidade interessa à FIFA. Infantino cultiva relações com líderes de espectro ideológico amplo: de Putin a Biden, de Bolsonaro a Macron. Sua estratégia depende de neutralidade aparente e acesso irrestrito.

O que está em jogo para as instituições

A celebração pública cria três camadas de significado político:

  • Legitimação mútua: Trump empresta capital político a Infantino; recebe em troca associação com evento de alcance global
  • Bypass institucional: conversas entre líderes políticos e dirigentes esportivos ocorrem sem escrutínio do poder judiciário ou controle legislativo
  • Normalização de informalidade: a diplomacia via elogios públicos substitui canais oficiais de relacionamento entre Estados e organizações internacionais

Para analistas de ciência política, o padrão é conhecido. Líderes populistas preferem relações personalizadas a estruturas burocráticas. Valorizam o gesto simbólico sobre o processo institucional.

FIFA e o jogo de poder global

A FIFA aprendeu a navegar esse terreno. Infantino expandiu a Copa do Mundo de 32 para 48 seleções — decisão que multiplica países anfitriões e, consequentemente, líderes políticos com interesse direto no torneio.

A edição de 2026 terá três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá. Três sistemas de poder judiciário, três estruturas regulatórias, três contextos políticos diferentes.

Para a FIFA, isso representa proteção. Nenhum governo isolado controla o evento. Todos têm incentivo para colaborar.

Trump percebeu essa geometria de poder. Seus elogios miram não apenas 2026, mas a construção de narrativa para sua eventual presidência: o homem que trouxe o mundo para a América.

Análise de contexto: poder e espetáculo

O cientista político italiano Norberto Bobbio distinguia poder visível de poder invisível. O primeiro opera sob escrutínio institucional — parlamentos, tribunais, imprensa. O segundo flui por canais informais, longe do poder judiciário e controle público.

A aliança entre líderes políticos e dirigentes de organizações esportivas globais habita essa zona cinzenta.

Infantino não responde a eleitores. Trump, mesmo fora do cargo, mantém influência sobre parte significativa do eleitorado americano. O encontro entre essas duas formas de poder — uma burocrática-corporativa, outra carismática-populista — produz arranjos que desafiam análise institucional tradicional.

A Copa do Mundo vira, assim, mais que competição esportiva. Torna-se palco onde se ensaiam alianças que escapam ao controle das estruturas clássicas de poder judiciário, legislativo e executivo.

E Trump, como sempre, joga para a plateia — sabendo que o placar real se conta em votos, não em gols.