Divisões geopolíticas custam 1% do PIB global, diz Goldman
O mundo está mais fragmentado hoje do que em qualquer momento desde os anos 1980. E isso tem um preço: 1% do PIB global.
A conclusão vem de um estudo do Goldman Sachs que mediu, pela primeira vez em escala global, o impacto econômico das divisões geopolíticas entre blocos de poder. Os números revelam um paradoxo incômodo para quem acredita em diplomacia: guerras abertas são mais rápidas de superar que rupturas políticas silenciosas.
O custo oculto da política de blocos
Segundo o banco de investimentos, conflitos armados levam em média dois anos para deixar de afetar o crescimento econômico bilateral. Já rompimentos diplomáticos — sem um tiro sequer — exigem 14 anos para cicatrizar completamente.
A diferença não é acidental. Guerras têm fim declarado, tratados de paz, marcos visíveis. Rupturas diplomáticas criam zonas cinzentas onde empresas hesitam, investidores recuam e cadeias produtivas se reorganizam em câmera lenta.
No presidencialismo de coalizão que marca as democracias ocidentais, essa fragmentação complica ainda mais a coordenação econômica internacional. Alianças partidárias domésticas já são frágeis; quando se projetam no tabuleiro global, a instabilidade multiplica.
De volta ao mundo pré-globalização
Os pesquisadores do Goldman compararam os padrões atuais de comércio e investimento com as últimas quatro décadas. A conclusão: estamos regredindo para níveis de compartimentalização geopolítica não vistos desde antes da queda do Muro de Berlim.
Três blocos principais emergem nessa nova cartografia:
- O eixo ocidental liderado pelos Estados Unidos e Europa
- O bloco sino-russo e seus satélites econômicos
- Uma zona intermediária de países não-alinhados tentando navegar entre os dois
Essa terceira categoria — os novos não-alinhados — enfrenta o dilema clássico de todo presidencialismo de coalizão: manter todas as portas abertas exige concessões em todas as direções, até que o custo político supera o benefício econômico.
Quem paga a conta
O prejuízo de 1% do PIB global não se distribui uniformemente. Economias médias e altamente integradas às cadeias globais sofrem mais. Brasil, México, Turquia, Indonésia — países que construíram seu crescimento recente na arbitragem entre blocos — veem suas margens de manobra encolherem.
Para potências como Estados Unidos e China, o custo é relativamente menor. Elas têm escala doméstica e gravitação própria. Podem bancar a ineficiência de cadeias produtivas duplicadas, fábricas de semicondutores redundantes, rotas comerciais mais longas.
São os intermediários que sangram.
A política por trás dos números
O estudo do Goldman não é apenas um exercício econométrico. É um alerta para formuladores de política em sistemas de presidencialismo de coalizão, onde a pressão por resultados imediatos colide com a lenta maturação das rupturas geopolíticas.
Um presidente pode romper com um parceiro comercial e não ver consequências durante seu mandato. O sucessor — mesmo de partido diferente — herdará a conta. Em sistemas parlamentaristas com maior continuidade institucional, esse descompasso temporal é mais gerenciável. No presidencialismo, vira bomba-relógio eleitoral.
A fragmentação atual tem raízes na crise financeira de 2008, acelerou com as guerras comerciais de 2018 e consolidou-se após a invasão da Ucrânia em 2022. Mas diferentemente desses marcos dramáticos, seus efeitos se espalham de forma difusa, quase imperceptível no dia a dia.
Precedente histórico preocupante
A comparação com os anos 1980 não é fortuita. Foi a última vez que o mundo operou em blocos claramente demarcados, com sistemas econômicos paralelos e pouca permeabilidade entre eles.
A diferença: naquela época, o mundo socialista estava à margem da economia global de mercado. Hoje, China e Rússia são partes integrantes — porém crescentemente separadas — do mesmo sistema. A desintegração acontece de dentro.
Em termos de presidencialismo de coalizão global, é como tentar governar com uma maioria parlamentar que se desfaz em tempo real, sem que ninguém formalmente deixe o governo. A coalizão existe no papel, mas não funciona na prática.
O preço dessa disfunção, segundo o Goldman Sachs, é mensurável: 1% do PIB mundial. Cerca de US$ 1 trilhão por ano em crescimento que simplesmente não acontece porque o mundo não consegue mais coordenar-se como antes.
E ao contrário de guerras, que terminam, essa conta continuará chegando por pelo menos mais uma década.