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A nova Guerra Fria custa 1% do PIB global — e o Brasil está no meio

A nova Guerra Fria custa 1% do PIB global — e o Brasil está no meio
Foto: exame.com

O mundo não estava tão dividido desde os anos 1980. E dessa vez, há um número para medir o estrago: 1% do PIB global.

Um estudo do Goldman Sachs mapeou sete décadas de alianças e rupturas geopolíticas — de 1950 a 2022 — e chegou a uma conclusão incômoda. A fragmentação política entre blocos custa caro. Muito caro. E o pior: cicatriza devagar.

Enquanto uma guerra convencional leva em média dois anos para ser superada economicamente, um rompimento diplomático exige 14 anos. Isso porque guerra acaba. Diplomacia rompida vira estrutura.

O que mudou desde os anos 1980

Nos anos 1980, o mundo estava claramente dividido: bloco soviético contra bloco ocidental. Todos sabiam onde ficavam as linhas. Depois de 1991, houve um breve interlúdio de integração global. A China entrou na OMC. A Europa se expandiu. O comércio explodiu.

Agora, a divisão voltou — mas sem a clareza da Guerra Fria original.

Temos:

  • Estados Unidos e aliados ocidentais de um lado
  • China, Rússia e satélites de outro
  • E um enorme campo indefinido no meio — onde está o Brasil

O estudo do Goldman não mediu apenas alinhamentos formais. Mediu comportamento: votos na ONU, acordos comerciais, sanções, visitas diplomáticas. O resultado é um mapa de afastamentos progressivos que custam crescimento.

Por que custa 1% do PIB

A fragmentação geopolítica reduz comércio, investimento e transferência de tecnologia. Cadeias produtivas são redesenhadas por critério político, não econômico. Semicondutores viram arma. Terras raras viram munição.

Um ponto percentual de PIB global equivale a cerca de US$ 1 trilhão por ano. Não é abstração estatística. É investimento que não acontece, emprego que não se cria, inovação que não se difunde.

Para o Brasil, a conta é ainda mais complexa. Como economia aberta e dependente de commodities, o país precisa de ambos os blocos. China compra soja e minério. Estados Unidos fornecem tecnologia e capital.

A estratégia brasileira de "autonomia" — ou "não-alinhamento 2.0" — faz sentido no papel. Na prática, está sendo testada em um ambiente onde neutralidade custa privilégios de ambos os lados.

Ruptura diplomática versus guerra quente

O dado mais contraintuitivo do estudo é este: guerras se superam mais rápido que divórcios diplomáticos.

Dois anos para uma guerra. Catorze para um rompimento.

A explicação é estrutural. Guerra destrói e reconstrói. Há rendição, tratados, acordos. Há um fim. Ruptura diplomática, ao contrário, fossiliza. Cria instituições paralelas. Ergue barreiras que se naturalizam. Forma gerações inteiras que não conhecem cooperação.

É o que aconteceu entre Estados Unidos e Cuba. Entre Índia e Paquistão. E é o risco entre Washington e Pequim.

O precedente histórico que importa

A comparação com os anos 1980 não é acidental. É um aviso.

Naquela década, a segunda Guerra Fria congelou não apenas a política, mas o crescimento global. A integração europeia emperrou. Investimentos em desenvolvimento pararam. A América Latina viveu sua "década perdida".

Só depois de 1991, com o fim do bloco soviético, o crescimento global voltou a acelerar de forma consistente.

A pergunta agora é: quanto tempo até o próximo degelo?

Diferente de 1991, não há colapso iminente de nenhum dos blocos. China e Estados Unidos têm economias maduras, arsenais nucleares e esferas de influência consolidadas. Ou seja: a fragmentação pode ser permanente.

O que isso significa para a política brasileira

O Brasil enfrenta uma escolha que prefere não fazer. Aproximar-se demais de qualquer bloco custa acesso ao outro. Manter equidistância custa relevância em ambos.

A aposta do governo tem sido em instituições multilaterais — BRICS, G20, acordos Sul-Sul. Funcionou nos anos 2000, quando o ambiente global era de convergência. Funciona menos agora, quando é de fragmentação.

O custo de 1% do PIB global não se distribui igualmente. Economias intermediárias, como a brasileira, pagam proporcionalmente mais. Não têm escala para criar blocos próprios. Não têm poder para impor neutralidade.

Sobra a navegação — cada vez mais difícil em águas cada vez mais divididas.

"Catorze anos para cicatrizar um rompimento diplomático. Enquanto isso, o mundo perde US$ 1 trilhão por ano. E o Brasil tenta não escolher lado — ainda."