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Têxtil brasileiro cercado: tarifaço de Trump e Shein no mercado

Têxtil brasileiro cercado: tarifaço de Trump e Shein no mercado
Foto: valor.globo.com

A indústria têxtil brasileira está encurralada. De um lado, Washington impõe tarifa de 25% sobre exportações. De outro, gigantes como Shein e AliExpress capturam fatias crescentes do mercado doméstico. É o confronto entre protecionismo externo e invasão interna — e o setor calcula prejuízos em ambas as frentes.

A tarifa norte-americana atinge um segmento já fragilizado. Nos últimos três anos, as exportações brasileiras de têxteis e calçados para os Estados Unidos representavam cerca de 8% do total enviado ao exterior. Não é volume desprezível, mas tampouco estruturante. O problema real está em casa.

Plataformas asiáticas redefinem o jogo

Enquanto Washington eleva barreiras, as plataformas chinesas de e-commerce operam no Brasil com vantagens tributárias que distorcem a concorrência. Shein, Temu e AliExpress vendem produtos a preços impossíveis de serem replicados pela indústria nacional. A diferença não está apenas na escala de produção. Está no tratamento fiscal.

Até recentemente, remessas internacionais de até US$ 50 entravam no país isentas de impostos. A mudança legislativa de 2023 tentou corrigir a distorção, mas a implementação segue lenta. Empresários do setor relatam fiscalização insuficiente e subfaturamento sistemático nas declarações aduaneiras.

O resultado é visível nas ruas. Lojas tradicionais fecham enquanto caminhões entregam pacotes de plataformas estrangeiras em ritmo acelerado. A substituição não é apenas comercial. É industrial. Fábricas brasileiras operam com ociosidade crescente.

Precedente histórico: a automotiva dos anos 1990

O cenário atual tem paralelos com a crise da indústria automotiva brasileira após a abertura comercial de 1990. Na época, montadoras locais enfrentaram concorrência súbita de importados sem estar preparadas. Muitas não sobreviveram. As que permaneceram precisaram de proteção tarifária temporária e modernização forçada.

A diferença é que o têxtil não conta com o mesmo peso político. A indústria automotiva mobilizou governos, sindicatos e investimentos externos. Têxtil e calçados historicamente ocupam posição periférica na estratégia industrial brasileira, apesar de empregarem milhões.

Entidades setoriais agora buscam o poder judiciário como última trincheira. Questionam a constitucionalidade de benefícios indiretos a plataformas estrangeiras e pedem aplicação rigorosa de normas antidumping. É aposta arriscada. O Judiciário brasileiro tradicionalmente evita interferir em política comercial, domínio do Executivo.

O que está em jogo

Para além dos números imediatos, a dupla pressão sobre têxteis e calçados expõe fragilidade estrutural da economia brasileira. O país tornou-se refém de duas forças: protecionismo norte-americano crescente e desindustrialização acelerada pela concorrência asiática desregulada.

Washington usa tarifas como instrumento geopolítico. Pequim subsidia exportações como estratégia de penetração global. Brasília fica no meio, sem política industrial coerente ou capacidade de negociação bilateral efetiva.

Empresários do setor cobram medidas imediatas:

  • Equalização tributária real entre produtos nacionais e importados
  • Fiscalização rigorosa de subfaturamento em remessas internacionais
  • Negociação de cotas ou suspensão temporária das tarifas norte-americanas
  • Crédito subsidiado para modernização industrial

O governo federal sinalizou disposição para dialogar, mas não apresentou plano concreto. O Ministério do Desenvolvimento mantém interlocução com entidades, sem compromissos firmes. A Receita Federal promete reforço na fiscalização aduaneira, promessa repetida há anos.

Cenário político de fundo

A questão têxtil insere-se em debate mais amplo sobre reindustrialização. O governo atual prometeu recuperar capacidade produtiva perdida nas últimas décadas, mas enfrenta restrições fiscais severas. Subsídios exigem recursos inexistentes. Proteção tarifária gera represálias comerciais.

Soma-se a isso o contexto eleitoral que se aproxima. Estados como Santa Catarina, São Paulo e Ceará concentram produção têxtil e peso eleitoral relevante. A pressão política tende a crescer, mas sem garantia de tradução em política pública efetiva.

O setor têxtil brasileiro sobreviveu a crises anteriores adaptando-se e reduzindo escala. Desta vez, a dupla pressão pode ser fatal para segmentos inteiros. Não se trata apenas de empresas fechando portas. Trata-se de cadeias produtivas desaparecendo sem substituição equivalente em geração de emprego ou renda.

O cerco está montado. A resposta brasileira, até agora, é esperar.