Furto de cabos expõe fragilidade do Estado na periferia
Quatro mil quatrocentas e sete ocorrências. Esse é o número de furtos de cabos elétricos registrados pela Enel São Paulo apenas no primeiro semestre de 2026. Um aumento de 8% em relação ao ano anterior. Mais alarmante: 40% a mais de clientes ficaram sem energia por causa desses crimes.
O dado expõe uma fratura no pacto social brasileiro que vai muito além da questão energética.
O crime como sintoma político
Furto de infraestrutura não é delito ocasional. É crime organizado, planejado, executado por quadrilhas que operam com logística sofisticada. Caminhões, ferramentas industriais, rotas de escoamento para ferros-velhos e atravessadores. Tudo isso funciona em plena luz do dia, nas bordas das grandes cidades, onde o Estado chega tarde ou não chega.
A Enel não está sozinha. Concessionárias de energia, telefonia e transporte enfrentam o mesmo problema há décadas. Mas o fenômeno se intensifica quando a presença estatal recua. E recua especialmente nas periferias urbanas, onde o presidencialismo de coalizão brasileiro historicamente falha em coordenar políticas de segurança pública com investimento em infraestrutura e serviços básicos.
Coalizão sem coordenação
O sistema político brasileiro distribui poder entre União, estados e municípios de forma fragmentada. Segurança pública é responsabilidade estadual. Energia, regulada pela União. Fiscalização urbana, municipal. O resultado: ninguém se sente plenamente responsável quando cabos desaparecem em série.
Governos de coalizão, por natureza, operam mediante negociação contínua entre partidos, governadores, prefeitos. Isso pode gerar consensos importantes em temas nacionais. Mas dilui a responsabilização em problemas localizados, como o furto de cabos em bairros periféricos de São Paulo.
Quem paga essa conta? O cidadão comum, que fica sem luz. E, indiretamente, todos os consumidores, já que os prejuízos operacionais da concessionária acabam repassados nas tarifas.
Precedentes históricos
Não é a primeira vez que o Brasil enfrenta ondas de furto de infraestrutura. Nos anos 1990, durante a crise econômica, cabos telefônicos eram alvos constantes. Na década seguinte, com a valorização internacional do cobre, ferrovias foram desmanteladas. Trilhos inteiros desapareceram.
A cada ciclo, o padrão se repete: crise econômica, valorização de metais, fragilidade da fiscalização. E, sempre, a mesma geografia: regiões onde o Estado é ausente ou intermitente.
A diferença agora é o impacto imediato na vida urbana. Sem energia, não há internet, refrigeração, segurança residencial. A cidade moderna depende de fluxo contínuo de eletricidade. Interrompê-lo não é apenas inconveniente. É paralisar setores inteiros da economia local.
O custo político da omissão
O aumento de 8% nos furtos de cabos da Enel não é um número técnico. É um termômetro da capacidade do Estado brasileiro de garantir o básico: segurança, infraestrutura, previsibilidade.
Quando o presidencialismo de coalizão funciona bem, articula diferentes níveis de governo para atacar problemas complexos. Quando funciona mal, transforma problemas simples em crises prolongadas por falta de coordenação.
Furto de cabo é crime simples. Prevenir exige patrulhamento, fiscalização de ferros-velhos, inteligência policial básica. Nada disso acontece sem vontade política coordenada entre Palácio do Planalto, Palácio dos Bandeirantes e prefeituras.
Enquanto essa coordenação não acontece, os cabos continuam sumindo. E com eles, a confiança do cidadão de que o Estado funciona onde ele mais precisa.