Dupla armadilha: Trump e Shein estrangulam setor têxtil
A indústria têxtil e calçadista brasileira está sendo esmagada por dois lados ao mesmo tempo. De um lado, Washington. Do outro, Pequim via plataformas digitais. No meio, empresários pedem socorro.
A tarifa de 25% imposta pelo governo americano sobre produtos brasileiros chegou em momento crítico. O setor já sangrava com a enxurrada de produtos chineses vendidos por Shein, AliExpress e similares no mercado doméstico.
O Aperto Externo
A medida tarifária americana atinge um setor que historicamente dependeu do mercado norte-americano como válvula de escape. Quando o consumo interno esfria, as exportações sustentam fábricas e empregos.
Agora essa porta se fecha. A barreira de 25% torna produtos brasileiros menos competitivos frente a concorrentes asiáticos e até europeus no mercado americano.
É política comercial pura. Trump quer forçar empresas a produzir em solo americano. O Brasil é dano colateral.
A Invasão Interna
Enquanto isso, o mercado doméstico virou território ocupado pelas plataformas chinesas. Elas operam em vantagem tripla: produtos baratos, subsídios de Pequim e tributação nebulosa.
A Shein vende uma blusa por R$ 29,90. Uma confecção brasileira não consegue competir. Os custos trabalhistas, tributários e logísticos tornam impossível a paridade.
Empresários do setor relatam fechamento de fábricas em ritmo acelerado. São postos de trabalho que evaporam, principalmente no interior paulista, catarinense e cearense — regiões onde a indústria têxtil ancora economias municipais inteiras.
O Contexto Político de Fundo
Esta dupla pressão revela fragilidades estruturais do Estado brasileiro. A reforma tributária em curso não endereça a questão da competitividade internacional. E a ausência de reforma política impede articulação eficaz de interesses setoriais no Congresso.
O setor têxtil emprega 1,5 milhão de brasileiros diretamente. É intensivo em mão de obra, descentralizado geograficamente e vulnerável a choques externos. Exatamente o tipo de segmento que precisa de política industrial coordenada.
Mas coordenação exige governança. E governança exige reforma política. O Brasil segue operando com estruturas partidárias fragmentadas, coalizões instáveis e horizonte de curto prazo.
Precedentes Perigosos
Não é a primeira vez que uma indústria tradicional brasileira enfrenta pressão simultânea interna e externa. O setor de autopeças passou por processo similar nos anos 1990. A indústria de brinquedos praticamente desapareceu.
A diferença: têxteis e calçados empregam muito mais. O impacto social de uma desindustrialização acelerada seria devastador em dezenas de municípios.
Historicamente, crises setoriais desta magnitude forçaram o Estado brasileiro a intervir. O problema é que as ferramentas disponíveis hoje são limitadas. Subsídios esbarram em regras da OMC. Protecionismo tarifário convida retaliação.
O Que Está em Jogo
Para os empresários do setor, está em jogo a sobrevivência. Para os trabalhadores, o emprego. Para o país, a manutenção de capacidade industrial em segmento tradicional.
Mas há dimensão mais ampla. Esta crise expõe a incapacidade crônica do sistema político brasileiro de responder rapidamente a choques econômicos externos. A reforma política que o país não faz há décadas cobra seu preço em crises setoriais recorrentes.
Sem partidos sólidos, sem coalizões estáveis, sem horizonte de longo prazo, cada crise vira queda de braço episódica. Ganha quem grita mais alto ou quem tem mais lobby no momento.
Setores inteiros da economia não podem depender dessa loteria política.
A Saída Estreita
Tecnicamente, a solução passa por três frentes: negociação internacional para suspensão das tarifas, regulação mais rigorosa das plataformas digitais no mercado doméstico e política industrial que aumente competitividade via inovação e produtividade.
Politicamente, isso exige o que o Brasil não tem: coordenação interministerial eficaz e capacidade de aprovar medidas impopulares no curto prazo para ganhos no médio prazo.
A dupla pressão sobre têxteis e calçados é sintoma. A doença é mais profunda. E ela tem nome: paralisia decisória de um sistema político que precisa urgentemente de reforma.