Economia

Dólar a R$ 5,20 expõe fragilidade do presidencialismo de coalizão

O Boletim Focus manteve pela quinta semana consecutiva a projeção de dólar a R$ 5,20 para o fim de 2026. A persistência dessa expectativa não é mero dado técnico. É sentença do mercado sobre a arquitetura política brasileira.

O número significa isto: analistas não veem reversão da trajetória cambial sob o atual arranjo de poder. Cinco semanas de estabilidade na projeção revelam convicção, não dúvida temporária.

A Radiografia do Consenso

O relatório do Banco Central trouxe estabilidade também para 2027 e 2029. Apenas 2028 sofreu ajuste marginal. Essa linearidade projetada expõe algo maior que variações conjunturais de política monetária.

Estamos diante de desconfiança estrutural. O presidencialismo de coalizão brasileiro, em sua versão contemporânea, opera sob permanente tensão fiscal. Compromissos políticos conflitam com responsabilidade orçamentária.

A matemática é cruel: cada aliança custa. Cada ministério negociado gera despesa. Cada apoio parlamentar tem preço em emendas e programas. O câmbio precifica essa conta.

Precedente Histórico

Não é a primeira vez que o Brasil enfrenta dólar alto persistente. Os anos 2002-2003 trouxeram volatilidade cambial extrema. Mas havia incerteza sobre mudança de regime econômico.

Agora o cenário é distinto. O mercado conhece as regras. Conhece os atores. E mantém a projeção elevada justamente por conhecer.

A diferença reside na natureza do risco. Não é mais o desconhecido que assusta. É o conhecido que decepciona.

Coalizão Cara, Credibilidade em Baixa

O presidencialismo de coalizão funciona quando há disciplina fiscal compensatória. Dilui-se poder para governar, mas mantém-se rigor nas contas. Esse equilíbrio está comprometido.

As reformas recentes — tributária, administrativa — não convenceram suficientemente. O ajuste fiscal anunciado enfrenta resistências internas da própria base governista.

O mercado observa e conclui: a fragmentação política elevou o custo de governabilidade além da capacidade de entrega fiscal.

O Que Está em Jogo

Para empresários do agronegócio, o câmbio elevado oferece competitividade exportadora. Mas corrói capacidade de investimento em tecnologia importada e insumos.

Para a classe média urbana, significa inflação persistente em viagens, eletrônicos e medicamentos. Para a indústria, perda de escala no mercado interno.

A projeção estável de R$ 5,20 até 2026 desenha dois anos de planejamento sob câmbio depreciado. Isso não é volatilidade — é novo patamar.

Anatomia da Desconfiança

O Boletim Focus agrega expectativas de mais de 100 instituições financeiras. Quando há consenso prolongado, significa que diferentes metodologias chegam à mesma conclusão.

Essa convergência analítica aponta para fundamentos, não especulação. As instituições precificam risco político transformado em risco fiscal.

O presidencialismo de coalizão, que viabilizou governabilidade nas últimas décadas, enfrenta agora seu teste de sustentabilidade econômica.

Cenário à Frente

Três fatores podem alterar essa trajetória. Primeiro: reformas microeconômicas críveis que reduzam custo-Brasil. Segundo: consolidação fiscal convincente, com corte real de despesas. Terceiro: repactuação política que reduza o preço da governabilidade.

Nenhum dos três se desenha no horizonte imediato.

A manutenção da projeção em R$ 5,20 por cinco semanas consecutivas funciona como termômetro de confiança institucional. E o diagnóstico não é animador.

O mercado está dizendo ao país: conhecemos seu sistema político. Sabemos quanto custa fazê-lo funcionar. E não acreditamos que esse custo será controlado nos próximos dois anos.

Essa é a verdadeira notícia por trás dos números do Focus. Não se trata de previsão técnica neutra. É avaliação política com consequências econômicas mensuráveis para cada brasileiro.