Política

Voto em trânsito: mobilidade eleitoral testa presidencialismo

Voto em trânsito: mobilidade eleitoral testa presidencialismo
Foto: Metrópoles

Até 20 de agosto, 156 milhões de eleitores brasileiros podem solicitar o voto em trânsito. O número equivale à população inteira da Rússia decidindo onde quer votar.

A Justiça Eleitoral abriu o prazo nesta semana. A medida parece técnica. Não é.

O que está em jogo

O voto em trânsito expõe uma tensão estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro: como manter legitimidade democrática num território de dimensões continentais, com 5.568 municípios e disparidades regionais que tornam cada eleição um mosaico de realidades distintas.

Criado em 2020, o mecanismo permite votar fora do domicílio eleitoral. Foi pensado para as eleições municipais. Agora se consolida como ferramenta permanente.

O pedido pode ser feito pelo aplicativo e-Título ou em cartórios eleitorais. Simples na aparência. Complexo na execução política.

Precedente e contexto

A mobilidade eleitoral não é novidade global. Estados Unidos e Alemanha possuem sistemas robustos de voto por correspondência há décadas.

No Brasil, a inovação chega tarde. E chega sob pressão.

O presidencialismo de coalizão depende de capilaridade territorial para funcionar. Partidos negociam apoio regional em troca de cargos e recursos. O voto em trânsito introduz variável imprevisível: eleitores que escapam do controle geográfico tradicional.

Em 2022, mais de 1,4 milhão de pessoas votaram em trânsito. Número pequeno percentualmente. Grande o suficiente para alterar resultados em municípios médios.

Quem ganha, quem perde

Candidatos de oposição em cidades pequenas ganham. O voto em trânsito dilui o poder de máquinas políticas locais que dependem de isolamento geográfico para controlar pleitos.

Legendas de coalizão perdem previsibilidade. O modelo brasileiro se sustenta em alianças regionais calculadas com precisão. Mobilidade eleitoral embaralha as cartas.

A Justiça Eleitoral ganha legitimidade. Facilitar o voto é bandeira institucional em momento de questionamento das urnas eletrônicas.

O TSE estabeleceu regras claras: o eleitor pode votar em trânsito apenas para cargos de presidente, governador, senador e deputados. Prefeito e vereador, não. A limitação não é técnica. É política.

A engenharia por trás

Implementar voto em trânsito exige infraestrutura descentralizada. O Brasil possui 472 mil locais de votação. Cada um precisa estar preparado para receber eleitores de fora.

A urna eletrônica facilita. Mas a logística de mesários, cédulas para justificativa e controle de fluxo permanece desafio em municípios pequenos, onde a estrutura eleitoral é mínima.

O presidencialismo de coalizão brasileiro sempre operou com geografia como constante. Bahia vota de um jeito, Santa Catarina de outro. As alianças refletem isso.

Mobilidade eleitoral transforma geografia em variável. E variáveis custam caro em sistemas que dependem de previsibilidade para funcionar.

O que vem pela frente

A tendência é expansão. Cada vez mais brasileiros trabalham longe de onde votam. Home office e trabalho remoto aceleram o descolamento entre domicílio eleitoral e residência real.

Partidos terão que adaptar estratégias. Campanhas locais precisarão considerar eleitores flutuantes. Literalmente.

O presidencialismo de coalizão, já tensionado por fragmentação partidária e crise de representatividade, ganha mais uma camada de complexidade.

A Justiça Eleitoral vende a medida como modernização. E é. Mas também é reconfiguração silenciosa do jogo político.

O prazo termina em 20 de agosto. Até lá, cada pedido de voto em trânsito é um voto de desconfiança no modelo tradicional de enraizamento eleitoral.

E um sinal de que a política brasileira, mesmo sem perceber, já está em movimento.