Política

Maduro busca 'união nacional' enquanto Brasil debate sistema partidário

Maduro busca 'união nacional' enquanto Brasil debate sistema partidário
Foto: Metrópoles

Nicolás Maduro publicou uma carta dirigida à Venezuela falando em "união nacional". O timing é revelador: a mensagem mirava participantes da Marcha para Jesus, evento evangélico que mobiliza milhões. O líder venezuelano, isolado internacionalmente e contestado internamente, busca apoio religioso para sustentar seu regime.

A ironia é evidente. Maduro fala em união enquanto comanda um dos regimes mais centralizados da América Latina. Sua Venezuela opera sob partido único de fato, com oposição criminalizada e eleições questionadas pela comunidade internacional.

O contraste com o sistema partidário brasil

O Brasil vive realidade oposta. O sistema partidário brasileiro opera com 29 legendas representadas no Congresso Nacional. É a fragmentação levada ao extremo — alguns diriam ao caos.

Essa diferença não é acidental. Reflete escolhas históricas distintas sobre como organizar o poder político.

A Venezuela de Maduro herdou o modelo bolivariano de Hugo Chávez: concentração de poder, retórica revolucionária, mobilização vertical de massas. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) funciona como correia de transmissão do Estado.

O Brasil pós-redemocratização escolheu caminho inverso. A Constituição de 1988 facilitou a criação de partidos como reação aos 21 anos de bipartidarismo forçado da ditadura militar. O resultado: pluralismo excessivo, alianças instáveis, governabilidade permanentemente negociada.

Dois modelos, dois fracassos

Ambos os sistemas apresentam falhas estruturais graves.

Na Venezuela, a concentração absoluta eliminou freios e contrapesos. Maduro governa por decreto, ignora o Legislativo quando conveniente, manipula o Judiciário. A "união nacional" que ele propõe é eufemismo para submissão ao regime. Não há espaço para dissenso organizado.

No Brasil, a fragmentação partidária dilui responsabilidades e encarece a governança. Presidentes negociam com dezenas de legendas. Cada reforma exige coalizões complexas. O eleitor perde a clareza sobre quem defende o quê.

A Reforma Eleitoral de 2017 tentou conter a proliferação partidária através da cláusula de barreira. Partidos precisam atingir 3% dos votos válidos ou eleger 15 deputados em nove estados para acessar recursos do fundo partidário e tempo de televisão. A medida reduziu parcialmente a fragmentação, mas o Brasil ainda opera com um dos sistemas mais pulverizados do mundo.

A instrumentalização da religião

A carta de Maduro aos evangélicos não é novidade isolada. Representa tática deliberada de regimes autoritários: cooptar segmentos religiosos organizados para legitimar-se.

No Brasil, a relação entre política e religião opera diferentemente. Evangélicos formam bancadas suprapartidárias no Congresso. Negociam com governos de esquerda e direita. Exercem poder através da fragmentação, não da concentração.

Essa diferença é fundamental. Na Venezuela, Maduro busca subordinar a religião ao Estado. No Brasil, grupos religiosos navegam entre partidos, mantendo autonomia relativa.

Lições para a América Latina

O caso venezuelano serve de alerta sobre os riscos da concentração excessiva. Sistemas unipartidários ou de partido dominante eliminam alternância pacífica de poder. A "união nacional" vira slogan vazio quando não há espaço para pluralismo real.

Mas o Brasil também não oferece modelo ideal. A fragmentação extrema do sistema partidário brasileiro gera instabilidade crônica, dificulta reformas estruturais e confunde o eleitor.

A questão central permanece sem resposta definitiva: qual o equilíbrio adequado entre pluralismo e governabilidade?

A Venezuela de Maduro escolheu governabilidade sem pluralismo. O resultado é autoritarismo. O Brasil escolheu pluralismo sem governabilidade efetiva. O resultado é paralisia frequente e custo político alto para qualquer decisão.

A carta de Maduro sobre "união nacional" explicita essa tensão. União imposta não é união — é submissão. Mas fragmentação excessiva também não é liberdade plena — é inviabilização da ação coletiva.

A América Latina continua buscando o ponto de equilíbrio entre esses extremos. Por enquanto, tanto a concentração venezuelana quanto a dispersão brasileira demonstram os limites de suas respectivas escolhas institucionais.