Política

Violência doméstica expõe falhas do sistema partidário brasil

Violência doméstica expõe falhas do sistema partidário brasil
Foto: Metrópoles

Uma menina de cinco anos hospitalizada com traumatismo craniano. Um bebê de um ano com cortes na mão. A mãe, investigada por maus-tratos, nega as agressões. Este caso em São Paulo não é isolado — é sintoma de um colapso institucional que o sistema partidário brasileiro ignora há décadas.

O Vazio Institucional Entre a Lei e a Realidade

O Estatuto da Criança e do Adolescente completa 34 anos em 2024. No papel, uma das legislações mais avançadas do mundo. Na prática, crianças continuam vulneráveis em lares onde o Estado chega tarde — ou não chega.

A distância entre a norma e a execução revela o principal defeito estrutural do sistema partidário brasileiro: a incapacidade crônica de transformar compromissos legislativos em políticas públicas efetivas. Partidos de todas as matizes aprovam leis de proteção à infância. Nenhum constrói os mecanismos para fazê-las funcionar.

Três Décadas de Promessas, Zero Accountability

Desde a redemocratização, nenhum partido construiu uma agenda permanente de proteção infantil. O tema aparece em campanhas eleitorais, desaparece nos orçamentos. Conselhos tutelares operam sem recursos. Assistentes sociais atendem demandas impossíveis com equipes insuficientes.

Os números expõem a farsa:

  • Brasil registra mais de 35 mil denúncias de violência contra crianças por ano
  • Conselhos tutelares têm, em média, um conselheiro para cada 15 mil crianças
  • Apenas 18% dos municípios possuem equipes completas de proteção à infância

Enquanto isso, o sistema partidário debate pautas identitárias e distribui cargos em estatais. A infraestrutura básica de proteção social — aquela que poderia ter detectado os sinais de risco nesta família paulista — permanece sucateada.

A Política do Espetáculo Contra a Política da Execução

O caso reflete uma escolha deliberada do sistema partidário brasileiro: privilegiar o espetáculo legislativo em detrimento da gestão. Criar uma nova lei gera manchetes. Fiscalizar sua implementação nos 5.570 municípios não rende votos.

Esta lógica atravessa governos de esquerda e direita. O PT ampliou programas sociais, mas não estruturou carreiras de assistência social. O PSDB criou marcos regulatórios, sem financiar sua execução. Bolsonaro desmontou conselhos. Lula promete reconstrução, mas entrega cargos a partidos sem compromisso com a agenda.

O resultado é um sistema partidário que funciona como máquina eleitoral, não como instrumento de governança. Partidos existem para disputar poder, não para exercê-lo com eficiência.

O Custo Humano da Fragmentação

A fragmentação partidária brasileira — hoje com 29 partidos no Congresso — agrava o problema. Cada sigla busca sua fatia orçamentária. Nenhuma assume responsabilidade integral por resultados.

Secretarias de Assistência Social viram moeda de troca em negociações de coalizão. Partidos nanicos recebem pastas estratégicas como prêmio por apoio parlamentar. A competência técnica perde para a lealdade política.

Quando uma criança aparece ferida num hospital, o sistema responde com investigação policial — nunca com análise institucional. Ninguém pergunta: quantas visitas de assistentes sociais esta família recebeu? Os sinais de risco foram identificados na escola? O conselho tutelar tinha estrutura para atuar preventivamente?

Precedente Histórico: A República Que Não Protege

Este padrão tem raízes históricas. Desde 1889, a República brasileira construiu instituições para administrar território e arrecadar impostos. Nunca priorizou instituições de cuidado.

O sistema partidário reproduz esta lógica. Partidos disputam controle sobre Petrobras, Banco do Brasil, infraestrutura. Conselhos tutelares e centros de referência de assistência social permanecem invisíveis na partilha do poder.

Enquanto o sistema partidário brasileiro não criar incentivos para que partidos invistam em gestão de políticas sociais — e sejam punidos eleitoralmente por falhas — casos como o de São Paulo se repetirão.

Uma menina de cinco anos internada é mais que uma tragédia familiar. É o retrato de um sistema partidário que escolheu a irrelevância na única missão que justifica a existência do Estado: proteger os vulneráveis.