Tecnologia

Velocímetro no Google Maps expõe atraso regulatório brasileiro

Velocímetro no Google Maps expõe atraso regulatório brasileiro
Foto: tecmundo.com.br

O Google levou anos para adicionar um velocímetro ao Android Auto. O Brasil, décadas para regular tecnologia no trânsito.

A gigante de Mountain View finalmente implementou a função que motoristas pediam desde 2015. Um velocímetro digital agora aparece na tela do Google Maps durante navegação pelo Android Auto. Simples assim.

Mas a novidade expõe uma velha ferida: a paralisia regulatória brasileira diante da inovação tecnológica.

O vácuo normativo do asfalto digital

Aplicativos de navegação operam no Brasil há mais de uma década sem marco regulatório específico. Waze, Google Maps, Apple Maps — todos funcionam em zona cinzenta legal.

O Código de Trânsito Brasileiro data de 1997. A era pré-smartphone. Pré-GPS de bolso. Pré-tudo.

Enquanto isso, a tecnologia redefine mobilidade urbana. Velocímetros digitais são apenas a ponta. Carros autônomos já rodam em testes. Sistemas de assistência à direção se multiplicam. E a legislação brasileira? Estacionada.

Reforma que não chega ao Congresso

A reforma política brasileira ignora sistematicamente a agenda tecnológica. Deputados debatem reeleição, financiamento de campanha, cláusula de barreira. Legítimo. Mas insuficiente.

Falta visão sistêmica. Falta senso de urgência digital.

O Projeto de Lei 3337/2021, que tenta modernizar regras para tecnologia automotiva, está parado na Câmara há três anos. Tramita em câmara lenta — ironia involuntária para legislação sobre trânsito.

Comissões se alternam. Relatores mudam. O texto envelhece antes de nascer.

Quem paga a conta do atraso

Motoristas brasileiros operam em limbo jurídico. Usar velocímetro de aplicativo é legal? E se conflitar com o do carro? Quem responde em caso de multa contestada com base em dado digital?

Silêncio eloquente das autoridades.

A ausência regulatória não é neutra. Beneficia quem pode contratar advogados caros para disputar cada multa. Prejudica o cidadão comum, refém da interpretação do guarda na blitz.

Empresas de tecnologia também sofrem. Sem regras claras, investimentos minguam. Inovação migra para mercados com ambiente regulatório previsível.

O precedente internacional

União Europeia já regulamenta assistentes digitais de direção desde 2019. Estados Unidos têm arcabouço federal atualizado anualmente. Até Argentina avançou mais que o Brasil nesta pauta.

Não se trata de copiar modelos estrangeiros. Mas de reconhecer que tecnologia automotiva exige governança contemporânea.

O velocímetro do Google Maps é sintoma, não doença. A enfermidade é estrutural: um sistema político incapaz de metabolizar mudança tecnológica em velocidade adequada.

Reforma além da forma

Reforma política verdadeira transcende engenharia eleitoral. Significa atualizar o Estado para o século XXI. Criar mecanismos ágeis de resposta legislativa. Antecipar tendências, não apenas reagir a crises.

O Congresso Nacional precisa de comissões permanentes exclusivas para tecnologia e sociedade. Com assessoria técnica qualificada. Orçamento robusto. Poder real de pautar votações.

Enquanto isso não ocorre, cada atualização de aplicativo nos lembra: a inovação tecnológica corre a 5G. A reforma política brasileira, a dial-up.

O velocímetro digital do Google finalmente chegou. A modernização das instituições brasileiras continua no horizonte — sempre visível, nunca alcançada.