Política

USP oferece 7 mil vagas gratuitas: o que revela sobre educação

USP oferece 7 mil vagas gratuitas: o que revela sobre educação
Foto: Metrópoles

A Universidade de São Paulo abre nesta segunda-feira (20) inscrições para 7 mil vagas gratuitas em cursos de inverno. O número impressiona. Mas revela mais do que generosidade acadêmica.

Expõe uma fratura estrutural no sistema educacional brasileiro.

O que está em jogo

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) oferece 82 cursos online divididos em seis áreas temáticas. Formato digital. Acesso irrestrito. Certificação garantida.

Trata-se de um movimento que transcende a simples extensão universitária. É resposta institucional a uma demanda reprimida por formação qualificada que o sistema regular não consegue absorver.

O Brasil tem 2.655 instituições de ensino superior. Destas, apenas 304 são públicas e gratuitas. A USP, sozinha, recebe anualmente mais de 150 mil inscritos no vestibular para cerca de 11 mil vagas.

O precedente histórico

Cursos de inverno existem na USP desde os anos 1990. Nasceram como atividade complementar para alunos regulares durante o recesso.

A transformação ocorreu gradualmente. Primeiro, abertura para externos. Depois, digitalização acelerada pela pandemia. Agora, massificação do acesso.

O modelo atual difere radicalmente da origem. Não é mais privilégio de quem já está dentro. É janela de oportunidade para quem ficou de fora.

Quem ganha, quem perde

Os beneficiários diretos são evidentes. Profissionais buscando atualização. Estudantes de instituições privadas sem recursos para cursos pagos. Candidatos ao vestibular testando áreas de interesse.

O conflito subjacente é menos visível. Universidades públicas brasileiras consomem 1,3% do PIB. Atendem 25% dos universitários. O restante paga mensalidades ou depende de programas como o Fies.

Iniciativas como esta da USP amenizam a exclusão. Mas não a resolvem. Democratizam o conhecimento sem democratizar o diploma.

O contexto político mais amplo

O timing importa. O debate sobre universidades públicas intensificou-se nos últimos anos. De um lado, defesa da autonomia e gratuidade. De outro, pressão por produtividade e contrapartidas sociais.

Projetos legislativos propuseram cobrança de mensalidades. Reitores resistiram. O impasse permanece.

Cursos de extensão massivos funcionam como argumento político. Demonstram que a universidade pública extrapola seus muros. Atende a sociedade que a financia.

Não é coincidência que a FFLCH lidere essa iniciativa. Faculdades de humanas sofrem pressão constante por justificar sua relevância em termos utilitários. Cursos abertos são resposta pragmática a crítica ideológica.

O que os números escondem

Sete mil vagas parecem muitas. Relativamente, são poucas. São Paulo tem 12 milhões de habitantes. O Brasil, 203 milhões.

A taxa de conclusão em cursos online abertos raramente supera 15%. Abandono é regra, não exceção. Falta tempo, disciplina ou compatibilidade com rotinas de trabalho.

Certificados de extensão não equivalem a diplomas. Não garantem empregabilidade. Agregam currículo, não transformam trajetória.

A iniciativa é válida. Mas não substitui políticas estruturantes de expansão do ensino superior público.

Implicações para o futuro

A tendência é clara. Universidades públicas ampliarão modalidades abertas e digitais. Pressão social e fiscal obriga.

O risco é duplo. Primeiro, criar ilusão de acesso sem garantir oportunidades reais. Segundo, enfraquecer argumentos pela expansão de vagas regulares.

O modelo ideal combinaria ambos. Mais vagas gratuitas no ensino regular. Mais cursos abertos para atualização contínua.

Por enquanto, temos o segundo sem o primeiro. É avanço significativo. Mas insuficiente para corrigir desigualdades educacionais históricas que marcam a análise política brasil contemporânea.

As inscrições começam segunda-feira. Milhares tentarão garantir vaga. A maioria ficará de fora novamente. Alguns dos aprovados não concluirão os cursos. Poucos obterão benefícios tangíveis de longo prazo.

Ainda assim, a iniciativa merece reconhecimento. Não pela solução que oferece. Mas pelo problema que explicita.