Tiroteio em Itaquá expõe vácuo de segurança que assombra coalizão
Dez disparos. Um criminoso morto, vestido com uniforme da Polícia Militar. Pelo menos dez assaltantes invadindo uma empresa de cobre em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. A cena registrada em áudio — "esse aí já era", disse um PM após a rajada — resume o estado crítico da segurança pública paulista e seus efeitos colaterais sobre a coalizão presidencial.
O episódio ocorreu quando policiais militares responderam a um assalto em andamento. Os criminosos, segundo informações preliminares, usavam fardas policiais para simular uma operação legítima. O confronto resultou em uma morte e na fuga dos demais assaltantes.
O problema político por trás do tiroteio
Para além da crônica policial, o caso expõe uma fissura estrutural. São Paulo está sob gestão de Tarcísio de Freitas, adversário declarado do governo federal. Mas a escalada da violência patrimonial — roubos de carga, invasões a empresas, quadrilhas especializadas em metais — atinge diretamente a base eleitoral que sustenta a coalizão presidencial no estado.
A Grande São Paulo concentra 39 dos 70 deputados federais eleitos por São Paulo em 2022. Desses, 18 integram partidos da base governista. Todos enfrentam o mesmo dilema: como cobrar segurança de um governador oposicionista sem admitir a própria incapacidade de pressão política?
Precedente histórico e inação federal
O uso de uniformes policiais por criminosos não é novidade. Remonta ao assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005, quando quadrilhas usaram fardas para despistar vigilância. Mas a recorrência do expediente em 2025 indica sofisticação tática e falha de inteligência.
O governo federal, por sua vez, mantém silêncio estratégico. A Força Nacional poderia ser acionada mediante convênio com o estado. Não foi. O Ministério da Justiça poderia propor integração de bases de dados para rastrear uniformes falsificados. Não propôs.
A inação revela cálculo: deixar Tarcísio sangrar politicamente com a insegurança. O risco é que o sangue respingue na coalizão. Prefeitos petistas da região metropolitana já sentem a pressão. Comerciantes cobram. Empresários ameaçam retirar apoio.
Quem perde com o impasse
A resposta curta: todos. Tarcísio perde capital político com sua base conservadora, que elegeu-o prometendo punho firme. A coalizão presidencial perde porque governar é mais que marcar posição — é entregar resultado, mesmo em território adversário.
O empresariado paulista, tradicionalmente volátil em alianças, observa. Cobre é commodity estratégica. Empresas que manuseiam o metal são alvos preferenciais porque o material é líquido no mercado clandestino. A ineficiência na proteção desses ativos afeta confiança e investimento.
O que vem pela frente
Três cenários se desenham:
- Tarcísio endurece o discurso e aumenta efetivo nas periferias, arriscando confrontos que alimentam seu eleitorado mas desgastam direitos humanos;
- A coalizão presidencial rompe o silêncio e oferece cooperação federal, sinalizando maturidade política mas legitimando um adversário;
- Mantém-se o impasse, com episódios violentos servindo de munição retórica para ambos os lados até 2026.
O mais provável é o terceiro. A polarização brasileira se alimenta de tragédias mal resolvidas. Cada tiroteio vira narrativa. Cada narrativa, combustível eleitoral.
Enquanto isso, em Itaquaquecetuba, o corpo de um criminoso vestido de policial aguarda identificação. E dez assaltantes seguem à solta, possivelmente planejando o próximo golpe. Com ou sem farda, com ou sem plateia política.