Tebet vira porta-voz do etanol na estratégia de coalizão de Lula
Simone Tebet não vai apenas ao Senado por São Paulo. Antes, precisa salvar o etanol brasileiro do tarifaço de Donald Trump. A ministra do Planejamento virou a interlocutora oficial do Palácio do Planalto com empresários do setor sucroenergético — justamente enquanto tenta construir sua candidatura no estado que concentra 60% da produção nacional de biocombustíveis.
A escolha de Lula não é acidental. É presidencialismo de coalizão em estado puro.
Tebet carrega três credenciais que nenhum petista possui: trânsito no agronegócio, imagem de técnica responsável e um palanque em construção no interior paulista. O governo precisa das três para enfrentar a crise tarifária sem perder aliados no Congresso nem votos no campo.
O xadrez político por trás da missão
O etanol enfrenta sobretaxas americanas que podem inviabilizar exportações. O Brasil vende cerca de US$ 500 milhões anuais em etanol aos Estados Unidos — volume pequeno na balança comercial, mas politicamente sensível.
Os usineiros paulistas formam um dos lobbies mais organizados do país. Muitos financiaram Tarcísio de Freitas em 2022. Agora, precisam do governo federal para negociar com Washington.
Lula oferece a solução através de Tebet. E ela aceita porque precisa deles tanto quanto eles precisam dela.
A ministra enfrenta resistências em São Paulo. Seu nome não empolga o eleitorado urbano da capital. Mas o interior — onde ficam Ribeirão Preto, Sertãozinho, Piracicaba — representa outro jogo. Ali, quem fala com os usineiros fala com prefeitos, vereadores e formadores de opinião.
Coalizão em ano eleitoral
O modelo brasileiro de governabilidade sempre exigiu distribuição de poder entre partidos. Ministérios viram moeda de troca por apoio legislativo. Mas em 2026, a lógica se sofistica.
Tebet não comanda apenas uma pasta. Comanda um projeto eleitoral que interessa ao Planalto. Enfraquecer Tarcísio em São Paulo virou prioridade estratégica para o PT. A senadora sul-mato-grossense, agora radicada em São Paulo, serve a esse propósito.
O governo federal usa a máquina para blindá-la de críticas e pavimentar alianças regionais. Em troca, ela empresta credibilidade a negociações que um ministro petista teria dificuldade de conduzir.
É simbiose política. Ou, na linguagem da ciência política, presidencialismo de coalizão funcionando exatamente como desenhado.
Precedentes e riscos
A estratégia tem antecedentes. Dilma Rousseff usou Kátia Abreu, então senadora pelo PMDB e presidente da CNA, para dialogar com o agronegócio entre 2015 e 2016. Funcionou por alguns meses. Depois, Abreu virou crítica do governo que servia.
Temer entregou a Agricultura a Blairo Maggi, gigante do agro, para garantir sustentação na base ruralista. A jogada segurou o Congresso durante reformas impopulares.
Agora, Lula repete a fórmula com Tebet. O risco é que ela use a estrutura governamental para fortalecer um projeto pessoal que, no médio prazo, pode rivalizar com o PT em São Paulo.
Mas para um governo que precisa aprovar orçamento, segurar a inflação e evitar isolamento internacional, o risco parece calculado.
O que está em jogo
Para o setor do etanol: acesso direto ao núcleo decisório do governo federal em momento de crise comercial.
Para Tebet: capital político no interior paulista e narrativa de gestora capaz de resolver problemas concretos.
Para Lula: um fusível entre o Planalto e o agronegócio. Se der certo, o mérito é do governo. Se fracassar, a conta fica com a ministra.
A cena resume o estado atual da política brasileira: não há mais campos ideológicos puros. Há arranjos pragmáticos costurados entre interesses convergentes temporários. O presidencialismo de coalizão não é defeito do sistema. É o sistema.
E Simone Tebet acaba de virar sua personificação mais clara em 2026.