Política

Tatuagem de fã expõe culto à personalidade no Brasil contemporâneo

Tatuagem de fã expõe culto à personalidade no Brasil contemporâneo
Foto: Metrópoles

Uma influenciadora digital brasileira anunciou nas redes sociais que precisará retocar a tatuagem do rosto de Vinicius Jr após o jogador alterar sua aparência facial. O episódio, tratado com humor pela própria tatuada, revela camadas mais profundas sobre culto à personalidade no Brasil.

A marcação permanente na pele de ídolos — sejam atletas, cantores ou políticos — não é fenômeno novo. Mas sua intensificação nas últimas duas décadas coincide com a fragmentação do espaço público brasileiro e a ascensão de lideranças carismáticas em todas as esferas.

Do estádio ao Planalto: mesma dinâmica

O que conecta fãs que tatuam jogadores a eleitores que idolatram políticos? A resposta está na erosão das instituições como mediadoras de identidade coletiva.

Quando partidos políticos funcionavam sob lógica de presidencialismo de coalizão — modelo que exige negociação institucional constante entre legendas — o vínculo do cidadão era menos personalista. A política se organizava por plataformas programáticas, não por devoção individual.

Esse sistema, consolidado entre 1995 e 2014, fragmentava o poder. Nenhum líder concentrava sozinho a narrativa política nacional. As coalizões diluíam o protagonismo.

A virada personalista

A partir de 2013, o modelo entra em crise. As manifestações de junho revelam descolamento entre instituições tradicionais e anseios populares. O vácuo é preenchido por lideranças carismáticas que dispensam mediação partidária.

No esporte, dinâmica semelhante. Vinicius Jr não representa apenas o Real Madrid ou a Seleção. Ele encarna narrativa individual de superação — menino pobre que venceu o racismo europeu. A tatuagem da fã não celebra uma instituição esportiva. Celebra o indivíduo.

Este padrão repete-se na música, no entretenimento, na política. Bolsonaro e Lula, em seus respectivos campos, transcenderam partidos. Suas bases os seguem pessoalmente, não institucionalmente.

Riscos da tatuagem permanente

O problema da idolatria permanente — literal, no caso da tatuagem — é sua rigidez. Pessoas mudam. Políticos traem promessas. Jogadores envelhecem ou decepcionam.

No presidencialismo de coalizão tradicional, a decepção com um líder não destruía todo o sistema. Outros nomes da coalizão absorviam o desgaste. A instituição sobrevivia ao indivíduo.

No modelo personalista atual, a queda do ídolo abala toda a estrutura de crença. Eleitores tatuados — metafórica ou literalmente — enfrentam crise de identidade quando o líder falha.

A influenciadora que precisa retocar a tatuagem vive, em escala individual, o que milhões experimentam politicamente: o custo de vincular identidade pessoal a figuras mutáveis.

Precedentes históricos

O Brasil tem histórico de lideranças carismáticas. Vargas, Juscelino, Collor — todos mobilizaram massas por carisma pessoal. Mas até os anos 1990, o sistema político mantinha válvulas institucionais de contenção.

O presidencialismo de coalizão, apesar de criticado por promover fisiologismo, cumpria função estabilizadora. Forçava líderes a negociar. Distribuía poder. Evitava concentração excessiva.

Sua crise — acelerada por Lava Jato e antipetismo/antibolsonarismo — deixou vácuo preenchido por personalismo puro. Sem coalizões sólidas, cada líder governa por popularidade pessoal, não por base parlamentar negociada.

O que significa

A tatuagem de Vini Jr funciona como metáfora involuntária. Quando sociedades tatuam suas esperanças em indivíduos — e não em instituições — assumem risco permanente.

O jogador tem direito de mudar o rosto. O político, de mudar posições. A fã e o eleitor arcam com consequências de escolhas irreversíveis.

Recuperar o presidencialismo de coalizão — ou qualquer modelo que fortaleça instituições sobre personalidades — exige reaprender a política como negociação, não como fé. Exige aceitar que líderes são transitórios, mas sistemas perduram.

Enquanto isso não ocorre, brasileiros continuarão retocando tatuagens — políticas e literais — cada vez que seus ídolos mudarem de rosto.