Tarifaço de Trump expõe fragilidade da coalizão brasileira
O choque tarifário anunciado por Washington acaba de revelar uma verdade incômoda: o presidencialismo de coalizão brasileiro não está preparado para crises comerciais externas de alta velocidade.
Enquanto Miguel Daú, analista do setor agrícola, discute incentivos fiscais e rotas alternativas de exportação, o debate de fundo é outro. A questão não é apenas econômica. É política.
A Arquitetura da Paralisia
O modelo brasileiro de governança funciona por negociação permanente. Ministérios são distribuídos. Emendas são negociadas. Políticas públicas passam por múltiplas instâncias de aprovação.
Esse sistema tem virtudes. Garante representatividade. Evita autoritarismo. Mas cobra seu preço em velocidade de resposta.
Quando Donald Trump anuncia tarifas comerciais, a reação americana é imediata. O presidente decide. O Departamento de Comércio executa. Pronto.
No Brasil, a mesma decisão precisa costurar consenso entre Ministério da Fazenda, Agricultura, Relações Exteriores, Casa Civil. Depois vem o Congresso. Depois as federações setoriais. Depois os governadores.
O problema não é de competência. É estrutural.
O Precedente Argentino
A Argentina de Javier Milei oferece contraste instrutivo. Independentemente do que se pense sobre suas políticas, a resposta portenha às tarifas americanas foi unificada e rápida.
Um governo com mandato claro, bancada coesa e linha ideológica definida move-se como bisturi. O presidencialismo de coalizão brasileiro move-se como comitê.
Historicamente, essa diferença importava menos. O comércio internacional operava em ciclos lentos. Rodadas da OMC levavam anos. Acordos bilaterais, meses.
Mas a era Trump inaugurou outro paradigma. Tarifas são anunciadas por tweet. Retaliações vêm em 48 horas. Cadeias globais se reorganizam em semanas.
Nesse novo ambiente, a lentidão decisória brasileira converte-se em desvantagem competitiva real.
A Fragmentação Setorial
O agronegócio brasileiro quer uma coisa. A indústria, outra. O setor de serviços, uma terceira.
Soja para China enfrenta dinâmica distinta de carne para Europa ou aço para Estados Unidos. Cada commodity tem seu lobby. Cada lobby tem sua representação no Congresso. Cada bancada tem suas prioridades.
O resultado é política externa feita por adição, não por estratégia. Somam-se demandas setoriais. O que emerge raramente é coerente.
Miguel Daú menciona incentivos fiscais. Correto. Mas quais? Definidos como? Por quanto tempo? Com que contrapartidas?
Essas perguntas exigem resposta coordenada. A coalizão precisa concordar. E concordar leva tempo que o mercado não concede.
O Custo da Hesitação
Cada semana de indefinição custa contratos. Importadores americanos não esperam. Compram de quem oferece certeza.
Canadá e México negociaram isenções. União Europeia articulou retaliação. Países asiáticos abriram mercados alternativos.
O Brasil discute. Forma comissões. Agenda reuniões.
Não é incompetência. É o preço do modelo. Presidencialismo de coalizão privilegia estabilidade sobre agilidade. Consenso sobre decisão.
Em tempos normais, é sabedoria. Em tempos de ruptura tarifária, é vulnerabilidade.
O Dilema Estrutural
Reformar o presidencialismo de coalizão é tarefa geracional. Exige mudança constitucional. Requer consenso político amplo.
Nada disso virá a tempo de responder ao tarifaço de Trump.
A solução de curto prazo passa por improvisação institucional. Grupos executivos com poder decisório real. Fast tracks legislativos para questões comerciais. Delegação de autoridade do Congresso para o Executivo em janelas temporais.
Todos esses mecanismos existem em democracias consolidadas. Todos ferem a lógica da coalizão distributiva brasileira.
O tarifaço americano não é apenas choque econômico. É teste de adaptabilidade política.
Por enquanto, o Brasil está reprovando.