Sorteio da CBF expõe fragilidade institucional do futebol feminino
A Confederação Brasileira de Futebol realiza nesta sexta-feira o sorteio das quartas de final da Copa do Brasil Feminina. O procedimento, em pote único na sede da entidade, define os confrontos após a classificação das Gurias Coloradas sobre o Coritiba.
Mas o que deveria ser rotina administrativa expõe um problema estrutural mais profundo.
Opacidade como método
A CBF mantém há décadas um padrão de gestão marcado pela concentração de poder e baixa transparência em processos decisórios. O sorteio de competições — momento crítico que define trajetórias e receitas dos clubes — ocorre sem auditoria externa independente ou transmissão pública obrigatória.
No futebol feminino, essa opacidade se amplifica. A competição movimenta milhões em cotas e patrocínios, mas opera sob regras que mudam sem consulta aos clubes. O calendário é definido unilateralmente. Os critérios de distribuição de recursos permanecem nebulosos.
Trata-se de um modelo que concentra decisões em poucos dirigentes, sem contrapesos institucionais efetivos.
Precedente histórico de crise institucional
A CBF carrega histórico de crises de governança que remontam ao escândalo da Máfia do Apito em 2005, passando pela prisão de dirigentes na Operação Fair Play em 2015, até investigações recentes sobre desvios em contratos de transmissão.
Cada episódio revelou o mesmo padrão: instituições esportivas operando como feudos privados, impermeáveis ao escrutínio público.
O futebol feminino, em expansão acelerada desde 2019, replica essa estrutura viciada. Clubes reclamam privadamente de falta de diálogo. Jogadoras denunciam calendários que desconsideram sua saúde. Torcedores não encontram canais de participação.
O que está em jogo além das quartas de final
Este sorteio ocorre em momento crítico. O futebol feminino brasileiro vive seu maior ciclo de profissionalização. A seleção conquistou a prata olímpica. Patrocinadores investem cifras recordes. A audiência cresce exponencialmente.
Mas o crescimento expõe as fraturas do modelo de gestão.
Sem transparência, a competição perde credibilidade. Sem participação dos clubes nas decisões, a liga não se fortalece como produto comercial. Sem prestação de contas, os recursos não chegam à base.
A questão transcende o esporte. Entidades esportivas são organizações de interesse público, reconhecidas por lei, que administram recursos de patrocinadores, televisões e governo. Operam, na prática, como concessionárias de um serviço que deveria ter controle social.
Paralelo com outras crises institucionais
O padrão da CBF replica o que cientistas políticos identificam em outras esferas: captura institucional por grupos de interesse, ausência de accountability, resistência a reformas de governança.
É o mesmo fenômeno observado em federações estaduais, confederações olímpicas e órgãos reguladores capturados por lobbies setoriais. Instituições que deveriam servir ao interesse coletivo tornam-se instrumentos de perpetuação de poder.
No futebol feminino, essa captura tem consequência direta: freiam o desenvolvimento de uma modalidade que poderia gerar mais empregos, mais receita, mais representatividade.
O sorteio como sintoma
Um sorteio deveria ser transparente por princípio. Tecnologia permite transmissão ao vivo, auditoria em tempo real, participação remota de clubes. Nada disso é adotado como padrão.
A escolha pela opacidade não é técnica. É política.
Revela uma entidade que ainda opera como se prestasse contas apenas a si mesma. Que trata clubes como subordinados, não como associados. Que vê transparência como ameaça, não como fortalecimento institucional.
As Gurias Coloradas conquistaram sua vaga em campo. Merecem uma competição gerida com a mesma seriedade que demonstram dentro das quatro linhas. O futebol feminino brasileiro merece instituições à altura de seu potencial.
O sorteio desta sexta é mais um teste. A CBF pode escolher abrir suas portas ou manter as cortinas fechadas. A escolha dirá muito sobre o futuro da modalidade no país.