Política

Sistema partidário Brasil: a pizza que todos comem todo domingo

Sistema partidário Brasil: a pizza que todos comem todo domingo
Foto: Metrópoles

Todo domingo, 67% dos brasileiros repetem o mesmo ritual: pizza. Não importa o sabor, não importa o preço. É tradição. Exatamente como funciona o sistema partidário Brasil.

A comparação não é fortuita. Desde a redemocratização de 1988, o país construiu um cardápio de 29 partidos registrados no TSE. Mas, assim como pizzarias que oferecem 40 sabores usando os mesmos cinco ingredientes, a diferença entre as siglas é mais de embalagem que de conteúdo.

O Ingrediente que Nunca Muda

Cientistas políticos chamam de "fragmentação partidária". O cidadão comum chama de bagunça. Ambos estão certos.

O sistema partidário brasileiro opera sob um modelo proporcional de lista aberta — arranjo que, na teoria, garante representatividade. Na prática, funciona como receita de pizza proteica: você troca ingredientes tradicionais por versões "saudáveis", mas o resultado ainda é pizza.

Desde 1994, nenhum presidente eleito governou com maioria própria no Congresso. Todos precisaram montar coalizões. Tradução: comprar ingredientes de fornecedores diferentes para fazer o mesmo produto.

Quem Contra Quem

O conflito não está entre esquerda e direita. Está entre o discurso de renovação e a prática de permanência.

Dados da Câmara dos Deputados mostram que 41% dos parlamentares eleitos em 2022 trocaram de partido ao menos uma vez desde 2018. Não mudaram de ideologia. Mudaram de fornecedor.

É o equivalente político da pizza de aveia e frango: substitui massa por aveia, calabresa por frango, mas mantém a estrutura. Parece diferente. Vende como inovação. Continua sendo pizza.

O Precedente Histórico

A Itália viveu situação similar entre 1945 e 1993. Cinquenta governos em 48 anos. Partidos multiplicando-se como sabores de pizzaria napolitana. O sistema colapsou.

O Brasil, em comparação, teve 12 presidentes em 35 anos de democracia. Estável? Depende do referencial. Para padrões latino-americanos, sim. Para padrões de governabilidade efetiva, discutível.

O cientista político Jairo Nicolau documenta: desde 1988, o número efetivo de partidos no Congresso saltou de 8,7 para 14,1. Mais opções no cardápio. Mesma cozinha.

A Receita da Permanência

O sistema partidário Brasil mantém-se através de três ingredientes básicos:

  • Fundo partidário: R$ 4,9 bilhões distribuídos em 2023. Dinheiro público que garante sobrevivência de siglas sem base social.
  • Tempo de TV: proporcional ao tamanho das bancadas. Quem está dentro, permanece visível.
  • Cláusula de barreira: teoricamente elimina partidos pequenos. Praticamente, estimula fusões temporárias e legendas de aluguel.

Funciona como franquia de pizzaria. A matriz define padrões, mas cada unidade adapta conforme o dono local.

O Que Isso Significa

Para o eleitor médio: confusão. Pesquisa Datafolda de março de 2023 aponta que 58% dos brasileiros não sabem diferenciar programas partidários.

Para a classe política: estabilidade. Nenhum partido forte o suficiente para governar sozinho significa que todos precisam negociar sempre. Pizza para todos, todo domingo.

Para a governabilidade: custo. Cada fatia da coalizão cobra seu preço. Ministérios, emendas, cargos. O presidencialismo de coalizão brasileiro é o mais caro da América Latina em termos de distribuição de poder.

A Dieta Impossível

Receitas light proliferam. Reforma política está na pauta desde 1988. Distritão, voto distrital misto, financiamento público exclusivo — todas as opções foram debatidas. Nenhuma aprovada de forma definitiva.

Razão simples: quem precisa aprovar a dieta são exatamente aqueles que engordam com o sistema atual.

É pedir para a pizzaria reformular o cardápio no dia de maior movimento. Domingo. Sempre domingo.

O sistema partidário Brasil funciona. Mas funciona para quem está dentro dele, não necessariamente para quem vota de fora. Como pizza proteica que promete emagrecimento: tecnicamente possível, praticamente improvável, comercialmente genial.